Como matar bactérias

Bactérias são espertas. Quando tratadas com antibióticos, a maioria morre, mas uma minoria entra em dormência, fingindo estar morta. Os sintomas desaparecem e o médico, achando que liquidou as malditas, suspende os antibióticos. E elas voltam com força. Mas os cientistas são mais espertos. Descobriram um truque capaz de ativar bactérias dormentes, que são imediatamente liquidadas pelos antibióticos ao acordarem.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

23 Junho 2011 | 00h00

Você já deve ter sido tratado com um antibiótico da família dos aminoglicosídeos. Os mais famosos são a estreptomicina, a gentamicina e a neomicina, mas a família é grande e esses são os antibióticos escolhidos para tratar grande parte das infecções bacterianas.

Esses antibióticos interferem no processo de síntese de proteínas das bactérias. Para se dividir, a bactéria necessita sintetizar uma grande quantidade de proteínas. Ao inibir esse processo, o antibiótico acaba por matar a bactéria.

O problema é que, em muitas infecções, uma pequena quantidade de bactérias entra em dormência e acaba formando um filme muito fino na superfícies do tecido infectado ou mesmo de cateteres. Apesar de estarem em contato direto com o antibiótico, essas bactérias não são mortas.

Há muitos anos, os cientistas descobriram que essas bactérias resistem ao antibiótico porque entram em um estado de dormência, deixando de sintetizar proteínas. Sem síntese ativa de proteína, os antibióticos não matam as bactérias, mas, como elas também deixam de se dividir, os sintomas da infecção desaparecem. Com o desaparecimento dos sintomas, os médicos suspendem o tratamento. Mas, assim que o antibiótico sai de circulação, as bactérias que estavam dormentes despertam e começam a se dividir novamente. A infecção volta e geralmente o médico tem de lançar mão de um outro antibiótico.

Um grupo de cientistas resolveu investigar se era possível reverter o estado de dormência das bactérias utilizando carboidratos. As culturas de bactérias eram induzidas a entrar em dormência e, então, tratadas com gentamicina, sozinha ou combinada com diferentes carboidratos. Observou-se que a combinação de alguns carboidratos comuns, como glicose, frutose, manitol e piruvato com o antibiótico potencializava o seu efeito, tornando-o capaz de matar mais de 99,99% das bactérias dormentes. Foi possível demonstrar que esse fenômeno ocorria com diversos antibióticos e diversos tipos de bactéria.

Em uma série de experimentos simples, mas inteligentes, os cientistas puderam mostrar que esses açúcares (carboidratos) não induzem as bactérias a se dividir, mas ativam enzimas da membrana que as circunda. Essa ativação é suficiente para permitir que o antibiótico mate a bactéria. Os estudos foram confirmados em animais e tudo indica que devem funcionar em seres humanos.

A beleza desse resultado é que os açúcares utilizados são compostos usados rotineiramente em tratamentos e até mesmo como alimentos. Por isso, se os estudos forem confirmados em seres humanos, a utilização dessa combinação pode ser incorporada rapidamente pelos infectologistas e promete aumentar a eficácia desses antibióticos em alguns tipos de tratamento.

BIÓLOGO

MAIS INFORMAÇÕES: METABOLITE-ENABLED ERADICATION OF BACTERIAL PERSISTERS BY AMINOGLYCOSIDES. NATURE, VOL. 473, PÁG. 216

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