Como o acaso determina nossas vidas

Comprei o livro O Andar do Bêbado no aeroporto de San Diego, na Califórnia, há alguns meses. Esperava uma aeronave para Guarulhos. Fui seduzido menos pelo título do que pelo subtítulo: "Como o acaso determina nossas vidas." Era um best-seller lá. Hoje o é no Brasil. Saiu aqui pela Zahar.

Matthew Shirts, O Estadao de S.Paulo

26 de outubro de 2009 | 00h00

Li-o no avião. Já em casa, em São Paulo, liguei para meu pai para dizer que chegamos e que ele precisava ler o livro. "Espera só um minuto", respondeu. Quando voltou ao telefone pediu para eu repetir o nome do autor e o título. "Pronto, comprei", concluiu, satisfeito. Havia feito um download instantâneo no seu "Kindle 2", o leitor de livros digital da Amazon, e provado, mais uma vez, a superioridade desta nova tecnologia, que cata obras literárias do ar, como se fossem borboletas.

Acho que já contei essa história. Mas de lá para cá, reli O Andar do Bêbado no ônibus, a caminho do trabalho. Tomou o lugar de Pornopopéia, de Reinaldo Moraes, que deu o tom às minhas manhãs durante muito tempo. Não sou muito de reler livros. Menos ainda depois de tão pouco tempo. Mas gostara de O Andar do Bêbado sem ter certeza se o tinha entendido direito.

Afinal, é um livro de matemática. (Sempre fui mais das humanas.) E também de autoajuda. É um gênero pouco explorado, para dizer o mínimo. O autor, Leonard Mlodinow, professor em Caltech, explica os princípios básicos da probabilidade e a história dos matemáticos que os elaboraram. Nunca achei que fosse capaz de me divertir com um assunto desses. Mlodinow o torna agradável.

Mas boa parte do que ele escreve vai contra a intuição da gente. Mostra como inventamos histórias e teorias para explicar o sucesso e o fracasso, o rico e o pobre, quando, na verdade, tais resultados são frutos do acaso. Lança mão de exemplos do mundo de Hollywood, dos esportes e das finanças. Prova como um gerente de fundos de investimentos tido como "uma fera" nada mais é do que um sortudo, com estatísticas e mais estatísticas, fazendo o mesmo com grandes executivos de Hollywood, biografias de atores como Bruce Willis e escritores como J.K. Rowling, autora da série Harry Potter.

O Andar do Bêbado é rico e traz uma interessante história da matemática para leigos. Mas sua tese é simples: "Geralmente subestimamos os efeitos da aleatoriedade." Como escreve: "Hollywood nos fornece uma boa ilustração desse fato. Serão merecidas as recompensas (e punições) do jogo de Hollywood, ou será que a sorte tem um papel muito mais importante do que imaginamos no sucesso (e fracasso) de bilheteria de um filme? Todos nós entendemos que a genialidade não garante o sucesso, mas é tentador presumir que o sucesso deve emergir da genialidade. Ainda assim, a ideia de que ninguém é capaz de prever se um filme será bem ou malsucedido tem sido uma suspeita desconfortável em Hollywood ao menos desde o dia em que o romancista e roteirista William Goldman a enunciou em seu clássico As Aventuras de Um Roteirista de Hollywood, de 1983. Nesse livro, Goldman cita o antigo executivo de estúdios David Picker, que disse: "Se eu tivesse dito sim a todos os projetos que recusei, e não a todos os que aprovei, a coisa teria funcionado mais ou menos da mesma maneira."

Com isso, Mlodinow não quer dizer que a sorte é tudo. Muito menos que qualquer um pode ser J.K. Rowling.

Mas oferece, sim, diversas pérolas de sabedoria. Como disse, é mesmo um livro de autoajuda. (É só nos Estados Unidos, creio, que um professor de uma universidade "nerd" como Caltech, onde passa o seriado TheBig Bang Theory, diga-se, pode publicar autoajuda.)

A conclusão é: há muitas pessoas de talento, sejam elas atores, escritores, executivos, cozinheiros, o que for. E muita coisa fora do nosso controle. Mas há um fator, segundo Mlodinow, que podemos controlar: o número de oportunidades que aproveitamos. Então, como diz Thomas Watson, um dos pioneiros da IBM: "Se você quiser ser bem-sucedido, duplique sua taxa de fracassos."

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