Como o fundador do Megaupload passou de vilão a herói cult

No mês passado, o desenvolvedor de software neozelandês Ben Gracewood respondeu a uma mensagem postada no Twitter pelo magnata Kim Dotcom, fundador do site de troca de arquivos Megaupload, fechado pelo FBI. Perguntou: "Vocês por acaso passam o dia pilotando carrões e posando para fotos?", referindo-se à foto que Dotcom, 38 anos, tinha acabado de postar mostrando três de seus sócios em carrinhos de golfe e num Segway. "Não me incomodaria de passar a vida assim", escreveu.

Jonathan Hutchison ,

16 Julho 2012 | 03h10

Vinte minutos depois, recebeu uma resposta chocante: "Venha cá imediatamente!" Assim, ele foi com um amigo até a casa mais cara do país - uma mansão avaliada em US$ 24 milhões (R$ 48,7 milhões) alugada por Dotcom - para nadar na piscina e comer bolinhos. A Nova Zelândia acompanhou fascinada as atualizações no Twitter sobre a visita.

O episódio, registrado pela hashtag #swimatkims, foi apenas uma de uma série de reviravoltas bizarras no caso que transformou Dotcom numa espécie de herói cult desde a sua prisão.

Em janeiro, dois helicópteros da polícia aterrissaram no gramado de sua mansão para uma batida em sua propriedade, ao norte de Auckland. Na época, a maioria dos neozelandeses nunca tinha ouvido falar em Dotcom. Ele manteve um estilo de vida relativamente discreto pelos dois anos em que morou ali.

O caráter público da operação - realizada sob os termos do acordo de extradição entre Nova Zelândia e EUA - pareceu ter como objetivo chamar atenção. A prisão foi acompanhada por descrições surpreendentemente completas nos noticiários, incluindo o relato de como os policiais abriram caminho até encontrar Dotcom num quarto do pânico, onde ele teria sido encontrado sentado ao lado de uma espingarda.

Dotcom - nascido Kim Schmitz, na Alemanha - e três outras pessoas ligadas ao Megaupload foram detidos na operação decorrente do seu indiciamento nos EUA por violações da lei de copyright e lavagem de dinheiro. O Departamento de Justiça dos EUA disse que os indivíduos e duas empresas - Megaupload e Vestor - eram acusados de "envolvimento na formação de quadrilha, na conspiração para cometer infrações contra a lei de direitos autorais, conspiração para cometer lavagem de dinheiro e duas acusações substanciais de infração criminosa da lei de direitos autorais".

Neste mês, os advogados de Kim tentam suspender o processo contra a empresa, argumentando que os indiciamentos não valem porque devem ser entregues a um escritório das empresas em território americano, coisa que o Megaupload nunca teve. Mesmo que a argumentação seja aceita, o caso contra Dotcom e os outros réus prosseguiria. Os quatro detidos estão livres depois de terem pago fiança e aguardam audiência para determinar sua extradição.

A audiência estava programada para começar em agosto, mas na semana passada foi adiada para março de 2013 para que as questões legais sejam resolvidas. Após o adiamento, Dotcom se ofereceu em mensagem pelo Twitter a ir voluntariamente aos Estados Unidos para responder ao processo, mas exigiu que seu dinheiro seja desbloqueado para que possa pagar os seus advogados, que dizem estar sem receber desde o início do processo.

Entre os itens apreendidos pela polícia nas batidas de janeiro estavam 18 veículos de luxo avaliados em 6 milhões de dólares neozelandeses (R$ 9,7 milhões), computadores e até 11 milhões de dólares neozelandeses (R$ 17,8 milhões) em dinheiro. Em entrevista por e-mail, Dotcom disse ter sido maltratado pelo governo e pela polícia do país, e os acusou de estarem apenas atendendo os interesses americanos.

"Dois helicópteros e 76 policiais fortemente armados para prender um homem acusado de infrações contra a lei de direitos autorais - imagine a cena", escreveu. "Hollywood está importando seus roteiros de cinema para o mundo real, enviando forças armadas para proteger seu ultrapassado modelo de negócios."

Depois de um mês de detenção, foi fixado o valor da fiança de Dotcom, apesar de os promotores apontarem para o alto risco de fuga. Nos meses seguintes os advogados dele triunfaram numa série de audiências, conseguindo o relaxamento dos termos da fiança e a liberação de parte do dinheiro de seu cliente para o pagamento de despesas.

A maior vitória veio no fim de junho, quando um juiz da Suprema Corte decidiu que a polícia de Auckland tinha usado o tipo errado de mandado de busca, o que torna a operação ilegal.

O professor de estudos políticos Gavin Ellis, da Universidade de Auckland, disse que, com o passar do tempo, o público passou a apoiar cada vez menos a operação policial.

"A reação inicial foi de espanto e surpresa. 'Uau, vejam só o que a polícia fez, apanharam um suposto chefão do crime'. Mas, conforme o retrato do caso e do réu pintado pela mídia começou a mudar, o olhar retrospectivo fez com que toda a operação começasse a parecer exagerada. Houve uma clara mudança na forma de caracterizá-lo, fazendo com que passasse de suspeito a herói cult", disse Ellis.

Dotcom deu sua primeira entrevista à TV em março, num programa de variedades. Ele se mostrou afável, falando articuladamente num inglês quase impecável, com um discreto sotaque alemão. Durante a entrevista, descreveu o indiciamento americano contra si como "nada além de um comunicado à imprensa repleto de informações fora de contexto, elaborado para manchar ao máximo minha imagem".

Em e-mail enviado no início do mês, disse que "o povo da Nova Zelândia fez com que eu e minha família nos sentíssemos muito bem-vindos. Os neozelandeses sabem que fui tratado de maneira injusta e que seu governo faz qualquer coisa para agradar aos EUA". "Antes eu respeitava os EUA e o sonho americano", continuou. "Agora os considero a maior ameaça mundial à paz e à liberdade na internet."

Até há pouco, Dotcom nem sequer podia usar a internet. Depois que o tribunal lhe concedeu o acesso, ele começou a usar o Twitter no dia 19 de junho, alcançando quase 50 mil seguidores em duas semanas, e passou a postar fotos de sua família, além de caçoar da operação policial que o prendeu. Indagado sobre o motivo de sua nova atividade online, Dotcom disse que estava usando a maneira mais eficaz de responder a todas as mensagens de solidariedade que recebeu.

No dia seguinte ao #swimatkims, disse, via Twitter, que faria uma versão do evento para "todos". "Precisamos de uma grande piscina pública", escreveu. "Um ótimo DJ. Caixas de som e iluminação. Alguém se habilita?"

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