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Ignácio de Loyola Brandão
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Como os políticos perdem o cérebro ao virarem adultos?

Frijoles fritos e tamales no café da manhã em lugar de ovos com bacon me faziam logo de manhã entrar na atmosfera mexicana. Os frijoles, que vi em tantos filmes, são uma espécie de virado à paulista úmido e de intenso sabor. Vim para o lançamento na 19.ª Feira Internacional do Livro, FIL, de meu livro Veia Bailarina, que aqui se chama La Perla Asesina, em edição e tradução de Delia Juarez, que, com o marido Rafael, comanda a editora Cal y Arena há 25 anos. 

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

11 Dezembro 2015 | 02h00

Mulher forte, que traduziu todos os livros de Rubem Fonseca porque “as edições dele que vinham da Espanha desagradavam aos mexicanos, nosso espanhol é diferente, muita coisa do Rubem se perdia”. Para ela, ter sabido da existência do Veia Bailarina foi um achado em momento difícil. A vida arma astutamente suas teias. Vejam só. Irma, antropóloga, irmã de Délia, descobriu um aneurisma cerebral, a cirurgia complicou-se, entraram todos em um inferno astral. Foi quando a jornalista Irene Selser, amicíssima da família, surgiu com meu livro na mão. Tinha recebido um no final dos anos 1990. 

Conheci Irene e seu pai, Gregorio, em Cuba, em 1978, quando um grupo de escritores brasileiros foi a Havana para o concurso Casa de Las Américas. Selser, jornalista e sociólogo argentino, exilado no México, possuía um dos maiores arquivos do mundo sobre os acontecimentos políticos e sociais mais importantes do século 20. Processo de uma vida, com sete mil documentos e 51 livros, Gregorio conseguiu tirar seus arquivos das mãos da ditadura argentina, quando se exilou. Este material foi adquirido há 10 anos (Selser morreu em 1991) pela Universidad Autonoma de la Ciudad de México (UACM), temerosa que caísse em mãos de universidades norte-americanas. 

Depois de Cuba, nunca mais ouvi falar de Irene. Naquela época, ela queria ir para a Nicarágua lutar ao lado dos sandinistas. Teria ido, desaparecido, morrido, o quê? De repente, soube dela, e, como tinha acabado de publicar Veia Bailarina, mandei um exemplar. Quase 20 anos depois, Irene levou o livro para a antropóloga que se reconciliou com a vida e se restabeleceu. O relato sobre meu aneurisma é para cima, bem-humorado, alto astral. E se eu não tivesse conhecido Irene? Pequenos enigmas. 

O lançamento aqui em Guadalajara foi precedido por uma mesa-redonda comandada por Délia e por André de Leones, com a participação de Irene e eu. Após 38 anos, eu reencontrava a amiga perdida. As centenas de lançamentos na FIL são precedidas por bate-papos. Quem compra o livro, sabe o que tem em mãos. As mesas de 50 minutos se sucedem sem interrupção, de manhã à noite, pontualíssimas.

Esta Feira de Guadalajara é gigante, jovial, política, fórum de ideias, traduz a expressão do pensamento contemporâneo. Aqui se discutiram problemas como das candidaturas independentes no México, as desaparições das pessoas (lembram-se do episódio dos jovens sumidos e assassinados?), as eleições de 2015, a segurança/insegurança fronteiriça, os direitos humanos, discutiu-se se a América Latina lê a si mesma, a migração feminina, e assim por diante. Um acontecimento que vai além da venda de livros.

O catálogo de 300 páginas traz 650 escritores, cientistas, professores, ensaístas, críticos, historiadores, ilustradores, blogueiros, tradutores, booktubers, roteiristas de cinema e televisão, profissionais do livro fazendo leituras, conferências, palestras, promovendo debates, dando oficinas, autografando. Há ainda a FIL Jovem, a FIL Niños, a FIL Ilustração, Fil Ciência, Fil Bibliotecários, a Fil Livro Eletrônico. Cerca de milhão de pessoas circulou pela feira até domingo passado, quando ela se encerrou. Fiquei assombrado ao ver o número de jovens nas filas para entrar, comprar. Essa é a diferença da FIL: ela é jovial, sorridente, cheia de risos e gritos e abraços. A feira deste ano foi dedicada ao Reino Unido e quem fez a fala de abertura foi nada menos que Salman Rushdie que, mesmo ainda tendo a ameaça da pena de morte sobre a cabeça, circulou e deu autógrafos e fez selfies. 

Há quatro anos, o Brasil desembarcou em terra tapatias (tapatio é quem nasce em Guadalajara) e vem se mantendo com segurança. De 2012 até hoje, passaram por ali 56 autores brasileiros. Participamos de várias mesas sob o tema Destinação Brasil. Salas lotadas para ouvir André de Leones, André Sant’anna, Antonio Prata, Claudia Lage, Flavio Carneiro, Joca Reiners Terron, Noemi Jaffe, Paula Pimenta, Raphael Montes, Rubens Figueiredo e Simone Campos. Diferentes idades e ficções em conversas mediadas por Gustavo Pacheco, um que sabe administrar mesa sem falar muito, segurando quem fala demais. 

Estive entre os 1.200 jovens, isso, 1.200 jovens, que lotavam o auditório Juan Rulfo, para ouvir Enrique Krauze, historiador e jornalista. Tudo que ele dizia sobre o México era roupa feita sob medida para nosso Brasil. Krauze: “O problema é muito mais moral. Quer dizer, corrupção, impunidade, violência e insegurança. Isso é o que em realidade preocupa as famílias. Sobre isto necessitamos de resultados, não de discursos, promessas ou demagogias... Mais que um sistema eleitoral, fazem falta debates profundos. Debates que reduzam ao mínimo o furacão absurdo de spots de televisão, que a única coisa que produzem é provocar (alimentar) uma repulsa cada vez maior pelos políticos. Fundamental é que se debatam os que têm propostas reais para o País”. No meio da garotada eu pensava: Krauze assistiu a todos os spots nojentos e mentirosos dos partidos feitos pelos nossos marqueteiros.

Krauze prosseguia: “Precisamos de mudanças pacíficas, de grandes reformas e isso muito rapidamente. Não há dúvida que o México tem um problema ancestral de pobreza e desigualdade, uma vez que seu crescimento econômico é muito raquítico. O País deve crescer mais”. O problema econômico brasileiro tornou-se raquítico a partir do instante em que esvaziaram os cofres comprando políticos, empresários, tornando a corrupção uma peste. Este é um momento marcado por duas características: corrupção endêmica e anencefalia de nossos políticos. Só muitas tequilas com sal, tomadas nos finais de tarde para aliviar a cabeça.

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