Como transformar marola em tsunami

Análise publicada originalmente no Estadão Noite

Celso Toledo*, O Estado de S. Paulo

27 de março de 2015 | 22h00

O IBGE confirmou o que já se desconfiava e nos presenteou com a cereja que faltava para enfeitar o bolo de lama em que se transformou o cenário político-econômico. A economia andou de lado em 2014. A renda per capita, melhor para avaliar a evolução do bem-estar, encolheu 0,7%. 

Como o governo é infalível, o leitor pode apostar que ouvirá autoridades dizendo que, apesar de todos os esforços envidados para evitar o pior, o Brasil sofreu no ano passado o que de fato é uma crise mundial. Engolimos água da marolinha.

Evidentemente, a explicação de que todos estão no mesmo barco não sobrevive à inspeção dos dados. Tome-se, por exemplo, o desempenho dos países da OCDE. A economia desse grupo de nações ricas cresceu 1,8% em 2014, bem mais do que o Brasil.

O leitor que conhece um pouco da teoria do crescimento econômico sabe que comparar diretamente o desempenho brasileiro com o de nações ricas não faz sentido - exceto para ganhar uma eleição. Países menos desenvolvidos crescem com mais facilidade porque não têm que inventar a roda. Basta copiar o que dá certo, cabendo ao governo apenas criar condições para que as tecnologias de ponta e as boas práticas sejam internalizadas. 

Para isolar o efeito dos vaivéns da economia mundial em comparações, basta olhar o desempenho de economias que tendem a sofrer os impactos da oscilação de preços de matérias-primas, como é nosso caso. É simples criar um "grupo de controle" usando esse critério de semelhança, tomando cuidado para corrigir possíveis vieses advindos de comparações de países com estágios distintos de desenvolvimento.

O "grupo de controle" de minha preferência inclui dez economias: Austrália, Canadá, Chile, Colômbia, Indonésia, Malásia, México, Noruega, Peru e Filipinas. Entre 2002 e 2011, a evolução da renda per capita média dessas economias andou praticamente de mãos dadas com a nossa. No entanto, a partir de 2012 ocorreu uma divergência espantosa - essa conclusão é relativamente robusta aos critérios de escolha de países e de ponderação. 

Desde 2012, o crescimento anual da renda per capita foi de 0,6% no Brasil e de 3,6% no grupo de controle. Para que o leitor aquilate a diferença, se o padrão anterior tivesse se mantido, a economia brasileira deveria ter gerado no ano passado valor adicional de R$ 537 bilhões. Trata-se de graninha mais do que suficiente para comprar a Petrobrás em seu auge. Hoje dá para comprar quatro e receber R$ 45 bilhões de troco.

Se não foi a crise internacional, qual a origem do descalabro? A institucionalização do roubo está no contexto, mas me parece ser mais consequência do que causa. A literatura sugere que corrupção tem efeitos perversos sobre o crescimento, mas não na magnitude que nos separou do grupo de controle. Nosso caso parece validar o adágio segundo o qual não se deve atribuir à malícia aquilo que pode ser facilmente explicado pela incompetência. 

A causa dos males da economia brasileira está no conjunto de ideias que norteou a introdução da chamada "nova matriz econômica" a partir de 2011. Uma visão de governo que Ronald Reagan sintetizou da seguinte forma: se está se movendo, tribute; se continua se movendo, regule; se para de se mover, subsidie. Sem instituições muito maduras, governo grande e intervencionista e corrupção tornam-se quase sinônimos.

Olhando para frente, a economia não melhorará enquanto a "nova matriz" não for enterrada. É preciso arrumar as contas públicas e corrigir distorções de preços, coisas que o governo está tentando fazer. Restaurada a confiança, o próximo passo é avançar os projetos de infraestrutura. Ajudaria também fazer um racionamento de energia em 2015, que já está perdido, para encher os reservatórios para 2016. A opção politicamente confortável de correr o risco, torcendo por São Pedro, prejudica o planejamento das empresas. 

Como sempre, tudo é simples no papel e complicado na prática. Atualmente, está duro combinar o jogo com a turma que acha irrelevante criar cabras para distribuir cabritos. Faça-se justiça, o governo vendeu essa ilusão e agora amarga o custo de dizer a verdade. Uma coisa é certa: quão mais o governo facilitar o ajuste agora, mais estará rifando o nosso futuro.

Antes que me esqueça, os números do PIB ficarão bem mais feios do que estes que o IBGE mostrou. A recessão está apenas começando. Apertem o cinto.

* Celso Toledo é economista e diretor da LCA Consultores

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