Competição entre machos no interior das fêmeas

A primeira relação sexual ninguém esquece. Mas, para as abelhas e formigas, ela é realmente inesquecível, já que a primeira é também a última. Muitos desses insetos têm sua vida sexual restrita a um único dia. As fêmeas deixam o ninho e, no decorrer do voo nupcial, acasalam. Em algumas espécies, a cópula ocorre com um único macho e essas espécies são chamadas monoândricas; em outras espécies, denominadas poliândricas, as fêmeas têm relações sexuais com diversos machos. Em ambos os casos, a atividade sexual termina ao final do dia. Após o ato sexual, os espermatozoides são estocados em um pequeno saco chamado espermoteca, sendo liberados ao longo da vida da fêmea à medida que ela necessita fecundar seus óvulos.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2010 | 00h00

Nessas espécies, em que o sucesso reprodutivo depende de um único ato sexual, a competição entre os machos pelo direito de copular é ferrenha. Perdida a única chance, o macho não deixará descendentes. Do ponto de vista das fêmeas, a seleção do macho é de extrema importância, pois aquela única dose de espermatozoides determinará a constituição genética de seus descendentes.

Cientistas descobriram que, nas espécies poliândriacas, a competição entre os machos continua após o ato sexual. Por incrível que pareça, os espermatozoides de diferentes machos continuam a competir dentro da espermoteca, no interior do corpo da fêmea.

Mas como, misturados dentro da espermoteca, o espermatozoide de um macho consegue reconhecer e eliminar seus competidores? Nos insetos, assim como nos mamíferos, o fluido ejaculado é constituído por um líquido, produzido por um glândula chamada de assessória (nos mamíferos, esse fluido é produzido pela próstata), no qual os espermatozoides estão suspensos. Em um primeiro experimento os cientistas separaram os espermatozoides do fluido e demonstraram que, na presença do fluido, o número que espermatozoides que sobrevive é muito maior do que na ausência do fluido. Até aí, nada de especial, mas será que o fluido produzido por um macho também protege os espermatozoides de outros machos?

Briga interna. A surpresa foi que os resultados obtidos estudando espécies de insetos monoândricos é muito diferente dos obtidos nas espécies poliândricas. Ao isolar os espermatozoides de um macho e incubá-los com o líquido produzido por um irmão do macho ou com o líquido produzido por um outro macho qualquer, os cientistas verificaram que, nas espécies monoândricas, todos os líquidos têm o mesmo efeito, protegendo o espermatozoide e aumentando seu tempo de sobrevida.

Mas, nas espécies poliândricas, em que as fêmeas normalmente copulam com diversos machos, os cientistas observaram que o líquido produzido pela glândula de um macho protege os espermatozoides do próprio macho, mas causa a morte dos espermatozoides de outros machos.

Isso significa que, no interior da espermoteca das fêmeas, onde os espermas de diferentes machos convivem durante meses, o líquido produzido por um macho "tenta envenenar" os espermatozoides do concorrente. Em outras palavras, além de proteger seus espermatozoides no interior da fêmeas, o ejaculado dos machos tem a capacidade de aniquilar os espermatozoides de seus competidores.

E a fêmea? Fica passiva, enquanto os espermatozoides dos diferentes machos se exterminam mutuamente no interior de sua espermoteca? Não, descobriram os cientistas. Em pelo menos uma espécie poliândrica, a espermoteca da fêmea produz um antídoto que bloqueia a capacidade assassina dos ejaculado de seus amantes, garantindo desse modo a sobrevivência de um número suficiente de espermatozoides capazes de fecundar todos os seus óvulos.

Como pode ser visto, a competição entre machos pelo direito de copular e a guerra entre os sexos continuam a fazer vítimas muito depois do aparente vencedor ter conquistado sua fêmea. Os humanos não são tão diferentes.

BIÓLOGO FERNANDO@REINACH.COM

MAIS INFORMAÇÕES: SEMINAL FLUID MEDIATES EJACULATE COMPETITION IN SOCIAL INSECTS. SCIENCE, VOL.327

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