Computador identifica jovem em risco de desenvolver transtorno de humor

Pesquisadoras brasileiras criaram um método capaz de identificar adolescentes com risco de desenvolver transtornos de humor. O trabalho, divulgado na revista PLoS One, utiliza imagens do cérebro obtidas por ressonância magnética funcional para prever a probabilidade de que um jovem desenvolva doenças psiquiátricas com até 75% de acerto.

ALEXANDRE GONÇALVES, O Estado de S.Paulo

14 Maio 2012 | 03h04

Com o prognóstico seria possível pensar formas de atenuar, remediar ou, até mesmo, evitar o aparecimento do transtorno, aponta Letícia de Oliveira, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Ela realizou a pesquisa durante seu pós-doutorado no King's College, em Londres. Hoje, realiza o mesmo tipo de pesquisa no País, inclusive com outros tipos de doenças neurológicas e psiquiátricas. "É realmente um trabalho pioneiro", aponta Janaína Mourão Miranda, do University College London (UCL). Janaína trabalhou com Letícia no King's College. Hoje, está montando uma equipe para pesquisar o tema com dinheiro da Fundação Wellcome Trust.

Trabalhos anteriores já tinham utilizado neuroimagens para diagnosticar doenças. Mas, até agora, nenhum tinha comprovado a conveniência da técnica para realizar prognósticos.

As imagens utilizadas no estudo foram colhidas há cerca de quatro anos, nos Estados Unidos, e enviadas à Inglaterra para o estudo. À época, eram todos adolescentes saudáveis, que tiveram suas imagens cerebrais coletadas enquanto visualizavam faces com conteúdo emocional - como medo, felicidade ou apatia (mais informações nesta página).

Os pesquisadores tiveram acesso à evolução clínica dos voluntários que participaram da pesquisa. "Por isso, percebemos que, quanto maior era o grau de certeza da resposta do programa que analisava as imagens, maior era a chance dessas pessoas terem desenvolvido, na vida real, transtornos psiquiátricos", aponta Janaína.

Opinião. Lee Fu-I, do Programa de Atendimento de Transtornos Afetivos na Infância e Adolescência do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP (IPq-USP), analisou o trabalho a pedido do Estado e o elogiou. Disse que é um achado importante e que abre caminho, mas ainda não é um diagnóstico.

"O que se detectou é que o cérebro de pessoas com risco de desenvolver doença (porque tinham carga genética para transtorno bipolar) têm um mecanismo de funcionamento diferente daqueles que não tinham o risco. Mas não dá para dizer ainda se esse resultado é específico para o transtorno bipolar ou se ocorre, por exemplo, na maioria dos transtornos psiquiátricos."

Para ter essa certeza, explica, é preciso ter uma amostra muito grande de filhos de pacientes. Além disso, eles todos têm de apresentar o mesmo tipo de transtorno bipolar. Diferentes formas da doença podem apresentar alguma variação. "O teste propriamente dito ainda não está padronizado, e os pesquisadores estão em busca de um biomarcador que permita definir se é ou não é a doença. Como um teste de glicemia, que, se dá alto, mostra que a pessoa está diabética. Mas não temos isso para doenças psiquiátricas. O resultado da pesquisa até pode ser específico para o transtorno, mas ainda precisa ser testado em maior quantidade de pacientes."

/ COLABOROU GIOVANA GIRARDI

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