Comunidade recebe orientação contra abuso policial

Em cada porta, uma história diferente de abuso policial. No Complexo da Maré, zona norte do Rio, muitos dos 130 mil moradores têm um relato de constrangimento, humilhação e violência por parte dos policiais que realizam operações no maior conjunto de favelas ainda não pacificadas da cidade. À espera da ocupação policial definitiva, ainda sem data prevista, os moradores receberam nesta terça-feira orientações sobre a abordagem policial e como denunciar os abusos.

ANTONIO PITA, Agência Estado

06 de novembro de 2012 | 17h25

"Meu neto de 16 anos foi encurralado na parede na frente da minha casa com três fuzis apontados na cara. Ele me gritou assustado, tinha saído para comprar pão. Questionei os policiais e eles mandaram eu calar a boca", relembra a aposentada Maria Neuza Ferreira, de 60 anos. "Querem trazer a lei para cá, mas tem que trazer também o respeito." A aposentada não hesitou em colar na sua porta o adesivo de alerta aos policiais: "Nós conhecemos nossos direitos."

Nesta terça-feira, na comunidade Nova Holanda, 50 mil adesivos e cartilhas foram distribuídos. Outras 15 favelas do complexo também receberão a ação, coordenada pela ONG Redes da Maré em parceria com a Anistia Internacional e o Observatório de Favelas. Cerca de 100 voluntários devem percorrer as comunidades orientando os moradores.

O material distribuído explica as regras de abordagem dos policiais. Se parado na rua, o morador deve saber as razões da revista e não pode ser detido por estar sem documentos. Para abordagens em casa, a orientação é que o morador questione se há mandado e que acompanhe a revista policial. Nas cartilhas, há também um número para realizar denúncias contra abusos.

A Maré, na zona norte do Rio, é dominada por diferentes facções criminosas e recebeu parte dos usuários de crack e traficantes de drogas de outras favelas já ocupadas pela polícia. Com a iminente chegada das forças de pacificação, os moradores contam que as operações policiais têm se intensificado - e também a violência. "Tenho medo de eles invadirem, colocarem droga e dizer que é nossa. Aqui é assim", afirmou Michele Ribeiro, de 25 anos.

Antes da campanha, os organizadores se reuniram com a secretaria de Segurança do Rio para explicar os objetivos. Segundo Átila Roque, presidente da Anistia Internacional no País, a proposta é mostrar aos policiais e aos moradores que a segurança pública é um direito de quem vive nas favelas tanto quanto de quem vive na cidade formal. "A cultura da polícia é carregada de estereótipos sobre a favela, como se os moradores tivessem uma cidadania reduzida", avalia.

Ainda assim, parte dos moradores teme a reação dos policiais. "A gente fica com medo. Será que a gente pode receber represália?", questionou uma moradora que não quis se identificar. "Não queremos o enfrentamento. Estamos chamando a atenção para a necessidade de um planejamento para as ocupações policiais que leve em conta o morador, o que não acontece", afirma Eliana Silva, coordenadora da ONG Redes da Maré.

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