Comunidades ganham software colaborativo

A pergunta é recorrente: "Por que o Brasil é assim, por que tanta desigualdade?". Foi com base nesse questionamento, sempre presente na mente da alemã Daniela Mattern, de 32 anos - há quase uma década no País -, que surgiu o Mootiro Maps, uma ferramenta online, lançada neste ano, que mapeia dentro do ambiente digital as necessidades de educação, saúde, lazer e cultura de comunidades pobres de São Paulo e do Rio de Janeiro.

DAVI LIRA, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2012 | 02h05

"O nome Mootiro vem do tupi e significa construção coletiva. O instrumento surge como banco de dados intuitivo de acesso aberto alimentado pelas próprias comunidades", explica Daniela. O Mootiro acaba funcionando com uma espécie ferramenta colaborativa que permite, por meio da tecnologia de georreferenciamento, a inclusão de queixas da população quanto à falta de escolas e praças, ou de dados sobre clubes de leitura e atividades teatrais ofertadas por outras pessoas na mesma localidade - informações de pouco acesso ou até inexistentes para essas populações.

A inclusão de dados na ferramenta já alcançou 301 comunidades - a maior parte delas é da Grande São Paulo e do Rio de Janeiro. "A ferramenta acaba se transformando num guia da comunidade e também acaba mapeamento as carência dos serviços públicos", diz Daniela. A zona leste de São Paulo, por exemplo, faz parte do Mootiro, e o seu mapeamento foi realizado pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (CENPEC).

 EVELSON DE FREITAS/AE

 

Realidade. O Mootiro só se tornou uma realidade pelo aprendizado que Daniela teve nesses quase 10 anos de trabalho social no País. Nascida numa pequena cidade de 20 mil habitantes nas proximidades de Berlim, ela elegeu São Paulo como moradia as comunidades pobres da capital como espaços de intervenção para o seu trabalho.

Formada em Administração de Empresas Multinacionais na Alemanha, Daniela resolveu se concentrar na área de sistemas de gestão do terceiro setor na pós-graduação que cursou na Universidade de São Paulo (USP).

Uma de suas primeiras ações no País ocorreu quando resolveu, em 2005, alugar um espaço dentro da favela de São Remo, nas proximidades da USP, para oferecer, num local improvisado, acompanhamento escolar para 60 crianças. "Foi quando criamos o Projeto Alavanca", diz.

Mas foi posteriormente, com a doação de R$ 400 mil feita por um alemão de 73 anos, que o seu poder de atuação ganhou outra dimensão. "Com a captação, criamos o Instituto de Fomento à Tecnologia do Terceiro Setor (IT3S), voltado para a disseminação de noções de gerenciamento com o uso de softwares especializados pouco utilizados pelas ONGs", explica.

A partir da fundação do IT3S, Daniela enxergou um outro lado, ainda pouco percebido até então. "Depois de assessorar 20 ONGs de grande relevância aqui no País, vi que praticamente nenhuma delas mensurava os seus resultados", conta.

Com todo esse aprendizado, Daniela espera aperfeiçoar ainda mais a ferramenta. "Esperamos um Mootiro 2.0 em breve", diz.

 

Heliópolis tem participação ativa no projeto

A favela de Heliópolis, na zona sul de São Paulo, é uma das regiões de forte presença no Mootiro Maps. Por lá, o mapeamento da localidade contou com a adesão de crianças e adolescentes da própria comunidade. "Foram os próprios alunos das oficinas de Heliópolis que mapearam todos os telecentros, os grupos recreativos e as quadras esportivas da comunidade", afirma a alemã Daniela Mattern, idealizadora da ferramenta.

Assim como Heliópolis, as comunidades paulistanas da Granja Viana, Jaguaré, Brasilândia, São Miguel Paulista, Americanópolis e Jardim Aracati também têm participação ativa no Mootiro. "Ao todo, 1903 organizações e quase 700 atrativos culturais já foram colocados no ar", comenta Daniela, a "alemã que não para de trabalhar", como é conhecida na região.

Com todas essas possibilidades, o Mootiro Maps já conseguiu estabelecer uma parceria com a Rede ANDI Brasil - entidade de comunicadores pelos direitos de crianças e adolescentes - e, recentemente, conseguiu obter a adesão do Instituto C&A. Por meio da parceira, o projeto comunitário recebeu a doação de R$ 140 mil. / D.L.

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