'Comunismo não funciona em Cuba', afirma papa

A caminho do México, Bento XVI diz que Igreja pode ajudar ilha a adotar novo modelo

SILAO, MÉXICO, O Estado de S.Paulo

24 Março 2012 | 03h03

No avião que o levou de Roma para a visita de cinco dias ao México e a Cuba, o papa Bento XVI disse que o comunismo já não funciona na ilha e que a Igreja está disposta a ajudar o governo local a encontrar um novo modelo sem "trauma". Horas depois, ao desembarcar em Silao, no México, Bento XVI disse que "ninguém pode depreciar a dignidade humana - numa referência à violência dos cartéis de droga mexicanos.

"Hoje, é evidente que a ideologia marxista, na forma em que foi concebida, já não corresponde à realidade", disse o líder católico, respondendo à pergunta de um jornalista. "Dessa forma, já não podemos construir uma sociedade. Novos modelos devem ser encontrados, com paciência e de forma construtiva."

O pontífice, que deve chegar à ilha após três dias de visita ao México, fez um apelo pela liberdade de pensamento e de culto em Cuba, sob o regime comunista há mais de 50 anos. Ele também ofereceu ajuda da Igreja para uma transição pacífica. "Queremos contribuir em um diálogo espiritual para evitar traumas e ajudar a avançar até uma sociedade que seja fraternal e justa."

Seus comentários provocaram uma resposta cautelosa do governo cubano. "Escutaremos com todo o respeito à Sua Santidade", disse o chanceler cubano, Bruno Rodríguez, em uma entrevista coletiva em Havana. "Respeitamos todas as opiniões. Consideramos útil o intercâmbio de ideias. O governo cubano se esforça para fazer da visita de Sua Santidade um acontecimento memorável e um êxito pleno."

Os comentários de Bento XVI sobre o comunismo foram mais diretos e críticos que os de seu predecessor, João Paulo II, feitos durante sua histórica visita a Cuba, em 1998. Essa viagem acelerou o processo de reconciliação entre a Igreja Católica e os líderes comunistas cubanos. Mas a instituição religiosa e o governo da ilha ainda estão em desacordo sobre temas como o uso dos meios de comunicação e a educação religiosa.

Ao ser questionado se falaria sobre temas de direitos humanos em Cuba, o papa respondeu: "É óbvio que a Igreja sempre está do lado da liberdade".

Os cubanos reagiram de forma bem diversa às declarações do papa. Elizardo Sánchez, porta-voz da ilegal, mas tolerada, Comissão Cubana de Direitos Humanos, disse que a declaração do papa confirma sua "boa vontade" a respeito da situação na ilha, mas não tem grandes esperanças com a visita.

"Duvido muito que essa visita tenha algum impacto nos temas de direitos humanos e democracia para os cubanos. O problema em Cuba não é o marxismo. Ao governo falta a vontade de fazer as mudanças políticas modernizadoras de que o país necessita."

Violência. Ao desembarcar no Aeroporto Internacional de Guanajuato, em Silao, o papa preferiu abordar a violência que castiga o México por conta da guerra contra o narcotráfico, que já deixou 50 mil mortos desde 2006. Bento XVI disse que "ninguém pode depreciar a dignidade humana" e convocou os católicos a refirmar sua fé. "Os católicos devem atuar como o fermento da sociedade, contribuindo para uma convivência respeitosa e pacífica, baseada na inigualável dignidade de toda pessoa humana, criada por Deus, que ninguém pode ter o direito de esquecer ou depreciar."

O papa reiterou que rezará "particularmente pelos que sofrem por causa de antigas e novas rivalidades". / REUTERS e AP

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