Epitácio Pessoa/AE
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Conceito de qualidade total chega às tangerinas

Variedade sem sementes dekopon passa por rigorosa seleção para conquistar o padrão kinsei, para exportação

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2009 | 03h34

O conceito de qualidade total chegou à citricultura paulista. Produtores de tangerina dekopon, variedade sem semente ainda nova no mercado, adotam técnicas de cultivo que conferem à fruta padrão internacional. A tangerina que atinge o padrão especificado ganha um selo de qualidade com a marca kinsei, conferido pela Associação Paulista dos Produtores de Caqui (APPC), com sede em Pilar do Sul, região de Sorocaba, e que reúne 25 produtores de tangerina.

"É como se a kinsei fosse outra fruta", diz o agrônomo e consultor Sérgio Ituo Masunaga. "Ela se diferencia da dekopon em tamanho, cor e sabor." Para ser considerada kinsei, a dekopon precisa pesar mais de 300 gramas, ser colhida a partir de 285 dias da florada e atingir um brix (teor de açúcar) mínimo de 12 graus, com acidez de 1,2% ou menos.

MACIA E DOCE

Nessas condições, a fruta se torna mais macia e doce. E alcança preço até 50% maior do que a dekopon comum. Masunaga diz que não é fácil alcançar o padrão kinsei. Este ano, só 10% de toda a fruta colhida vai receber o selo. Os produtores cultivam 100 hectares e devem colher 3 mil toneladas, das quais só 300 serão kinsei. A safra prossegue até meados de agosto.

 

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Desenvolvida no Japão, a partir do cruzamento do tangor kiyoumi com a poncã, a dekopon foi introduzida aqui no fim da década de 80 por um produtor do sul de Minas. A fruta chama a atenção pelo tamanho (o dobro da poncã), a coloração amarela intensa e o "pescoço", uma saliência na região do pedúnculo. Conforme Masunaga, embora fosse novidade e tivesse o atrativo da falta de sementes, a disseminação foi prejudicada por falhas no manejo. "Os produtores empregavam as mesmas técnicas usadas para a poncã e colhiam uma fruta muito ácida."

Como alguns associados da APPC tinham formado pomares, a entidade passou a buscar uma forma de melhorar a fruta. Uma parceria com o governo do Japão, por meio da Agência Internacional de Cooperação (Jica), resultou na vinda de um especialista que recomendou a substituição do porta-enxerto de limão-cravo para os cultivares poncirus trifoliata e swingle citromelo. Cerca de 40 hectares com novas mudas foram plantados a partir de 2004. Os cultivos anteriores estão sendo adaptados.

Além do porta-enxerto, foram introduzidas outras técnicas, como o sistema de plantio em camaleão - uma espécie de canteiro alteado, onde são dispostas as mudas -, adubação orgânica, irrigação e poda. As plantas devem ser irrigadas, a menos que chova, duas vezes por semana no período de 60 dias após a florada até o amarelecimento de 50% das frutas.

DESBASTE

A poda, importante para manter o vigor da planta, deve ser acompanhada de um desbaste rigoroso, para que fiquem apenas de sete a oito frutos por metro cúbico de copa. O raleamento permite a obtenção de frutos maiores, com peso entre 400 e 500 gramas.

Uma das intervenções mais significativas foi o período da colheita. Como a fruta tem um período de maturação longo, os produtores colhiam assim que a fruta ficava amarela. "Agora sabemos que não basta a tangerina parecer madura, ela tem de estar madura", diz Masunaga. Para atingir o brix ideal, ela precisa ficar mais tempo no pé. "Com 220 dias após a florada o pomar já está colorido, mas deve-se esperar mais dois meses e meio para colher." Fruta colhida antes não atinge o brix exigido para virar kinsei. Por questão de logística, porém, grandes produtores têm de colher antes para não haver acúmulo e possíveis perdas no período ideal.

linkINFORMAÇÕES: APPC, tel. (0--15) 3278-3589

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