Conclave marca fim do período de transição iniciado por Bento XVI

Eleição que começa nesta terça-feira deve elevar a papa alguém que possa lidar com os traumas e iniciar uma nova fase na Igreja

JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL/ VATICANO, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2013 | 02h04

Se a demora para a escolha da data do conclave foi polêmica e dividiu cardeais, se os temas tratados pela Cúria estão causando um terremoto e se a atenção internacional é de tal magnitude na Praça São Pedro, nada disso ocorre por acaso. Vaticanistas e mesmo os príncipes da Santa Sé admitem: a Igreja entrará para o conclave para completar uma transição que, no fundo, começou em 2005 com a eleição de Joseph Ratzinger. Agora, pela primeira vez no século, a Igreja está diante do que pode ser uma nova fase.

Não são poucos os observadores que apontam que, em 2005, quando o alemão foi eleito, sua escolha pelo nome Bento foi intencional. De um lado, tratava-se de uma indicação de que ele iria priorizar a Europa em seu pontificado - São Benedito é o santo protetor do continente.

Mas também uma referência histórica. Sabendo que já em 2005 tinha 78 anos e que substituiria João Paulo II, que ficou 24 anos no poder, o alemão reconheceu o papel de ser um papa de transição. O último Bento a assumir a Igreja, há cem anos, também havia tido esse papel. Bento XV ficou no poder também por só 8 anos (1914 - 1922).

Bento XVI era um cardeal fiel a João Paulo II e sua eleição representou o início de uma transição. Agora, ela teria terminado e cardeais dizem que a eleição precisa, de fato, inaugurar uma nova fase e um novo governo capaz de lidar com os traumas da Igreja.

A jornalistas em Roma, o cardeal brasileiro d. Geraldo Majella Agnello deixou claro que a Igreja não optaria desta vez por mais uma pessoa que ocupe o cargo apenas por um tempo. "Não queremos alguém de transição."

Para religiosos, a própria renúncia de Bento XVI abreviou a transição e deu ao Vaticano a chance de lidar de forma explícita com seus problemas. "Podemos considerar que essa será na realidade a primeira eleição para papa no século 21 para escolher um papa para enfrentar os desafios do século 21. Em 2005, a opção foi por uma pessoa de dentro do governo anterior e que todos sabiam que manteria a mesma linha. Agora, a Igreja vai escolher seu caminho", disse uma fonte dentro do Vaticano.

Ainda que a Igreja tenha essa opção, não necessariamente optará por uma revolução, principalmente porque a fratura de opiniões entre os cardeais é profunda. "Nada ocorre no Vaticano de forma dramática", pondera Thomas Reese, um dos vaticanistas mais conceituados. "Há uma oposição ao governo existente. Mas uma oposição que não se entende e que apenas tem laços em comum baseados no fato de que não aceitam quem está no poder", diz.

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