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Conexão Pepsi-Cola

Entre outras teorias da conspiração, ex-candidato salafista viu no nome do refrigerante uma sigla para financiar o inimigo Israel

Aldo Cordeiro e Marcia Camargos,

26 Maio 2012 | 17h19

Eles já estiveram próximos da vitória. Mas, após ver sua principal liderança política fora da corrida eleitoral, o movimento de rua criticado pelos líderes e, acima de tudo, seus pares massacrados pelo Exército com a ajuda de manifestantes pró-regime, o salafismo, movimento que defende a interpretação literal do Alcorão, anda cabisbaixo.

O desânimo é compreensível para quem até pouco tempo encabeçou uma campanha de proporções gigantescas. Por semanas consecutivas a efígie de Hazem Salah Abu Ismail podia ser vista nos cartazes e folhetos que inundaram as ruas do Cairo. Para temor de muitos, ele chegou a figurar no topo das pesquisas de intenção de voto. Com 51 anos, o ex-candidato desfila uma imagem de senhor inofensivo que em nada evoca o ideal totalitário ao qual costuma ser associado. Dono de uma voz delicada e barba inteiramente branca, Sheik Hazem, como é conhecido no Egito, manteve por quase 15 anos um popular programa de TV em um canal religioso islâmico. Atuando nos moldes dos pastores evangélicos, passava orientações cotidianas a seus seguidores, que chegaram a muitos milhões ao redor do país. Cultivando um indisfarçável apego à teoria da conspiração, poupou raras instituições políticas e econômicas de seus ataques demolidores.

A Pepsi foi uma das que não escaparam da fúria do islamista. Em uma pregação televisiva divulgada nas redes sociais, o xeque salafista denunciava o caráter sionista daquela marca de refrigerantes. Segundo sua interpretação delirante, o nome Pepsi simbolizaria uma sigla conclamando a que se pagassem todas as moedas para salvar Israel. Ou seja, "pay every penny saving Israel". Assim, manipulando a seu favor construções léxicas um tanto confusas, Abu Islmail sempre viu o inimigo em todos os lugares.

A exemplo de boa parte dos salafistas, Sheik Hazem tem suas raízes fincadas na Irmandade Muçulmana, organização pela qual disputou duas eleições parlamentares durante o regime de Mubarak. Perdeu ambas, e mais tarde acusou o ex-presidente de fraudar o processo para tirá-lo do páreo. As tendências crescentemente conciliatórias da Irmandade teriam motivado seu desligamento da organização. Assim mesmo, e apresentando-se como líder de um grupo social esparso e atomizado, Abu Ismail provou-se um fenômeno. Seu discurso violentamente antielitista abriu portas às quais a Irmandade Muçulmana não tinha acesso. Sem nenhuma organização clara que o respaldasse nas suas pretensões à presidência, Ismail organizou uma campanha de fôlego, mobilizando multidões em comícios que se multiplicaram. Crítico implacável da junta militar no poder desde a queda do ditador, Ismail trilhou um caminho político distinto da Irmandade e dos demais partidos salafistas que, após ingressarem no Parlamento, adotaram uma postura conivente com o chamado Scaf (sigla em inglês para Conselho Supremo das Forças Armadas). Por instinto de preservação, todos buscaram uma distância saudável do islamista, e nem mesmo o principal agrupamento salafista do país, o Noor, endossou a candidatura de Abu Ismail. A politica de conciliação do partido com o regime até o colocou, em alguns momentos, em posições exatamente opostas à do xeque radical.

Mas nem sempre foi assim. Guiados por uma interpretação de certa passagem no Alcorão que obrigaria à adesão incondicional ao governo vigente, seja lá qual for, os salafistas eram despolitizados. Por isso, no passado recente, o antigo regime buscou fortalecer grupos mais radicais que, pelo seu caráter apolítico, representavam ameaça menor que a Irmandade. Lançando mão da tática de dividir para melhor governar, Mubarak usou os salafistas como instrumentos da ordem. No entanto, o grande divisor de águas entre estes e a Irmandade tem fundamentos menos teológicos do que se imagina. Impregnados por um discurso populista, os salafistas emergem das classes excluídas e historicamente ignoradas pelos governantes egípcios. Em seu sentido mais literal, representam o povo. Já a Irmandade é composta, em sua maioria, pelos setores médios da sociedade, profissionais liberais, médicos e professores, que ocupam os cargos de direção do partido.

Foi justo em meio ao processo de registro formal dos concorrentes para a oficialização das campanhas que um imprevisto até então inimaginável acabou por derrubar uma candidatura com chances razoáveis na disputa eleitoral. Sob a égide de uma lei que exige nacionalidade "pura" dos ascendentes de um futuro presidente da república, Abu Ismail caiu. Por uma dessas ironias da história, a dupla cidadania da sua mãe egípcio-americana derrubou o salafista por seus supostos vínculos com o Império do Norte. O candidato esbravejou, negando a notícia. Em programas de TV ao vivo, seus assessores acusavam de subordinação a Israel qualquer jornalista que questionasse as origens da senhora Abu Ismail. Logo em seguida, em uma impressionante demonstração de força, o salafista mobilizou centenas de milhares de manifestantes que lotaram a Praça Tahrir como havia meses não se via. De nada valeram os esforços e os protestos. Com o candidato da Irmandade Khaled El-Shater, e o vice de Mubarak, Omar Suleiman, Ismail teve sua candidatura impugnada pela comissão eleitoral, que se provou mais poderosa e de fato comprometida com a legislação do que seus opositores supunham.

Quando a base de Ismail viu o líder humilhado, seus integrantes decidiram entrar em ação. Inconformados com a medida, os ultraortodoxos, que antes ocupavam a Tahrir, resolveram levar sua luta ao seio do poder político e militar do país, o Ministério da Defesa, no bairro de Abasseia. Diante disso, Ismail, assim como os principais grupos salafistas, recuaram. O desafio frontal ao Exército incomodou até mesmo os que outrora se diziam ultrarradicais. Na prática, tornava-se claro que o gesto dos jovens apoiadores do xeque geraria o que todo dirigente do bloco islamista, hoje detendo importantes fatias do Parlamento, incluindo a presidência da Casa, tem evitado. Ninguém ali deseja um embate direto com o Exército.

No entanto, ao ocupar a principal praça de Abasseia, o setor mais ortodoxo do movimento islâmico contou com um apoio improvável. Em uma aliança no mínimo sui generis, grupos da juventude secular de esquerda uniram-se aos jovens salafistas, formando uma inesperada interação antirregime. O casamento teve vida curta. Como esperado, a repressão chegou com violência. "Além de enfrentarmos o Exército, tivemos de lutar contra os moradores locais, aliados históricos dos militares", afirmou Abdel Halim, um militante da esquerda de 25 anos que se juntou aos protestos. É consenso que os habitantes daquele bairro popular, em uma região altamente militarizada do Cairo, nutrem pouca simpatia pela revolução e menos ainda pelos acampados nas suas vizinhanças. Armados com facas, espadas e revólveres, os residentes não pouparam os manifestantes. "Enquanto éramos atacados pelos moradores, o Exército veio ao mesmo tempo pelo lado oposto com metralhadoras", relatou Halim sobre a batalha que, ao cabo de sete dias, teve oficialmente 11 mortos, com muitos alegando um número bem superior.

Após o massacre, todas as forças políticas do país, incluindo a Irmandade Muçulmana, optaram por se alinhar ao Exército, denunciando os jovens como ultrarradicais. Até o Noor se absteve, muito embora a maioria dos manifestantes fosse oriunda de sua base. "Eu compreenderia se eles ficassem silenciosos, mas se alinhar ao governo, isso eu nunca esperava", comentou o agora ex-militante do partido, Weeam Mohamad el-Nagar. Engenheiro de 31 anos que passou todos os dias na ocupação de Abasseia, Weeam ficou desolado com a atitude do povo egípcio. "O que ocorreu foi deprimente", lamenta ele.

A reação da opinião pública não diferiu muito do repúdio explicitado pelos políticos. Pesou para tanto o fato de Mohamad Zawahri, irmão de Aiman Zawahari, suposto mentor do falecido Osama Bin Laden e atual encarregado da Al-Qaeda, ter passado pela ocupação de Abasseia para dar apoio moral e desejar boa sorte aos jovens. Compreensivelmente, a visita funcionou como um tiro no pé. "Não conheço Zawahri nem o vi na ocupação, o que sua ida por lá tem a haver com sermos massacrados pelo Exército?", questiona Weeam. "E o Islã nos ensina que você não deve culpar alguém pelos crimes de seu irmão. Se seu irmão matou alguém, o que isso tem a ver com você?" perguntava, com indignação mal contida.

Apesar do contínuo desentendimento entre a Irmandade e os setores mais radicais dos islamistas, para Weeam o grupo continua um importante aliado. "Sou salafista, e acredito que a Irmandade, apesar de todos os recuos, também é", dizia. "Ainda que eles não mantenham a barba crescida, o que é obviamente um desvio, acredito que integramos o mesmo campo".

Em parte, a teorização de Weeam revela a complexidade do tema. Por mais que a expressão "salafi" tenha sido utilizada com frequência crescente pela mídia internacional, o termo não possui um significado fixo. Os salafistas não formam uma organização específica com regras claras e fronteiras delimitas, constituindo antes uma escola de teologia. Na prática, defendem uma interpretação literal dos textos islâmicos e um retorno às leis como definidas pelo profeta Maomé, no século 7º do calendário cristão.

Adversários da lógica aristotélica, vista por eles como uma intromissão helênica no seio da fé islâmica, os salafistas têm como preceitos básicos a defesa de uma perspectiva pura do Islã e um retorno do califado.

Agora, com a candidatura de Hazem Abu Ismail impugnada, e com a responsabilidade de haver abandonado seus correligionários durante o pico do enfrentamento dos ultrarradicais com o Exército, o movimento tem, diante de si, o desafio de se reerguer politicamente em meio a um Egito imprevisível.

- Aldo Cordeiro Sauda é cientista político e reside no Cairo desde a Revolução Egípcia

- Marcia Camargos é jornalista e escritora com pós-doutorado em História pela USP

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