Conferência termina com texto fraco e sob críticas

Só parte dos presentes se levantou para aplaudir aprovação final do documento

HERTON ESCOBAR , ENVIADO ESPECIAL/ RIO, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2012 | 03h05

A Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, terminou marcada pela distância entre as expectativas da sociedade civil e o que os governos e seus representantes foram capazes de produzir após 12 dias de diálogo. Até uma ministra do governo brasileiro - Izabella Teixeira, do Meio Ambiente - lamentou a falta de clareza em alguns pontos do texto final (mais informações nesta pág.).

O documento final da cúpula, intitulado de O Futuro que Queremos - e apelidado de O Futuro que Teremos, ou O Futuro que Não Queremos, por organizações não governamentais - foi aprovado ontem às 19h20, na plenária final da conferência, sem qualquer comentário por parte dos delegados presentes. A aprovação foi aplaudida pela plateia de forma recatada.

Apenas uma parte dos presentes se levantou para aplaudir. O embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado, que chefiou a negociações diplomáticas do Brasil na conferência, que coordenava a mesa da plenária, abriu um largo sorriso e levantou as mãos em comemoração com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, sentado ao seu lado.

O texto do documento, descrito como fraco e pouco ambicioso pelas ONGs - e também por muitas das próprias delegações nacionais que o aprovaram - foi costurado e fechado pelo Brasil na madrugada de terça-feira, após uma longa sequência de negociações pouco produtivas sobre pontos críticos, como a definição de economia verde e as garantias de ajuda financeira dos países ricos para apoiar o desenvolvimento sustentável de nações pobres.

Somente após Figueiredo bater o martelo, adotando oficialmente o texto, os representantes dos países pediram para falar ao microfone e expressar suas opiniões. "Apoiamos a adoção desse documento", disse o comissário da União Europeia para o Meio Ambiente, Janez Potocnik, que poucas horas antes da apresentação do rascunho do documento, na madrugada de terça-feira, mostrava indignação com a falta de transparência e a pressa do Brasil em fechar um texto que ele considerava muito pouco ambicioso. "Todos sabem que há muitas áreas nas quais gostaríamos de ter atingido resultados mais ambiciosos", disse Potocnik ontem.

Ao mesmo tempo, porém, ele apontou alguns pontos positivos do texto, como o reconhecimento da economia verde como algo importante para o desenvolvimento sustentável. "É um passo na direção certa", disse.

"Agora, precisamos transformar nossas palavras em ações." A definição de economia verde foi um dos pontos mais polêmicos da conferência. Vários países em desenvolvimento temem - e expressaram isso claramente em seus discursos oficiais - que a economia verde se transforme numa camisa de força do desenvolvimento, que os países desenvolvidos poderiam usar como plataforma para criação de novas barreias econômicas a produtos. "A Bolívia rechaça a economia verde", disse o representante do país latino-americano, que falou antes do europeu.

Bolivianos, venezuelanos, cubanos e outros delegados de países socialistas chegaram a classificar a economia verde como uma ferramenta de "ecocolonialismo" e "capitalismo ambiental".

Um representante da Argélia, falando em nome do Grupo dos 77 + China - que representa mais de 130 países em desenvolvimento, incluindo o Brasil, mas dentro do qual, informalmente, há muitas diferenças de opinião -, fez discurso semelhante ao dos europeus. "Ainda que algumas propostas do grupo não tenham sido mantidas no texto, o caráter balanceado do documento abre novos caminhos para chegar a um consenso sobre certas áreas na fase de implementação", disse. "A maior conquista é a reafirmação da diplomacia multilateral como melhor caminho para conquistar o futuro que queremos."

"Evitamos grandes passos para trás e fizemos progresso em algumas áreas específicas", disse o representante da Suíça.

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