Conflito afegão vai marcar a era Obama

No momento em que se aproxima o fim de seu primeiro ano na presidência, Barack Obama tomou uma posição corajosa quando decidiu pelo aumento do número de soldados americanos no Afeganistão para cerca de 100 mil. Os críticos de esquerda comentam que a Guerra da Coreia debilitou a presidência de Harry Truman, assim como a Guerra do Vietnã definiu o governo de Lyndon Johnson. Obama corre o risco de tornar-se, portanto, o terceiro presidente democrata cuja agenda doméstica será ofuscada por uma guerra difícil.

Joseph S. Nye*, O Estadao de S.Paulo

13 Dezembro 2009 | 00h00

Críticos de direita têm reclamado que o tratamento da política externa por Obama tem sido fraco, apologético, e dependente do poder brando. Eles questionam a promessa de começar a retirar os soldados americanos do Afeganistão 18 meses depois do reforço.

Obama herdou uma agenda de política externa carregada: uma crise econômica global, duas guerras difíceis, erosão do regime de não-proliferação nuclear por Coreia do Norte e Irã, e deterioração do processo de paz no Oriente Médio. O dilema era como lidar com esse legado difícil enquanto criava uma nova visão de como os americanos deveriam lidar com o mundo.

Com uma série de gestos e discursos simbólicos (em Praga, Cairo, Acra, ONU e outros lugares), Obama ajudou a restaurar o "poder brando" (soft power) dos americanos. Como uma recente pesquisa Pew afirmou, "em muitos países, as opiniões sobre os EUA são agora tão positivas quanto eram antes de George W. Bush assumir a presidência".

É um erro desconsiderar o papel que líderes transformadores podem desempenhar na mudança do contexto de questões espinhosas. O poder envolve estabelecer agendas e criar preferências de outros além de impelir e empurrar. É por isso que o governo Obama fala do "poder inteligente" (smart power), que combina com sucesso recursos do "poder duro" (hard power) e do poder brando em diferentes contextos. Mas o poder brando pode criar um ambiente mais propício para a política.

Os críticos contestam que Obama tem falado muito e feito pouco. Eles o retratam como um astro de rock que ganhou um Prêmio Nobel mais pelo que prometeu que pelo que fez. Eles zombam de sua popularidade, e notam que o Oriente Médio continua intratável, a Coreia do Norte nuclear, Iraque e Afeganistão não resolvidos, e o Irã difícil. Mas nenhum analista sério esperaria algo diferente no curto prazo. A abordagem de poder duro de Bush e Cheney não resolveria esses problemas.

Além de palavras, houve algumas realizações importantes. A de maior destaque foi o tratamento que Obama deu à crise econômica. Quando assumiu o cargo, seus consultores econômicos lhe disseram que havia uma chance de um em três de uma depressão ao estilo dos anos 1930.

Se Obama não tivesse evitado esse desastre, tudo o mais teria empalidecido em comparação. O sucesso requereu não só um pacote de estímulo econômico em casa, mas uma coordenação internacional. Apesar das medidas americanas contra as importações de pneus chineses, o nível de protecionismo foi muito menor que nos anos 1930 e do que muitos observadores previam. Obama usou a crise para conseguir o que muitos haviam sugerido durante anos: transformar o G-8 numa estrutura institucional mais ampla de um G-20 e que inclui as principais economias emergentes.

O tratamento que Obama deu às relações com a China foi estreitamente relacionado com a crise econômica. O modo como os EUA responderão à ascensão do poder chinês é um dos desafios de política externa mais importantes do século 21. Obama ampliou as reuniões comandadas pelo Tesouro para um diálogo estratégico copresidido pelo Departamento de Estado, com uma agenda que inclui mudança climática e questões multilaterais.

Ao contrário de algumas matérias mais céticas na imprensa, a reunião de cúpula de Obama com o presidente chinês, Hu Jintao, em novembro, foi um sucesso pouco alardeado. Ao mesmo tempo, ele admitiu que alianças estreitas com Japão e Austrália - e boas relações com a Índia - ajudam a manter as capacidades de poder duro que moldam o ambiente para uma China em ascensão.

Uma terceira realização significativa do primeiro ano de Obama foi remodelar questão da não-proliferação nuclear, que muitos consideravam em crise no fim da era Bush. Ao adotar o objetivo de longo prazo de um mundo não nuclear (embora talvez não durante seu tempo de vida), Obama reiterou o antigo compromisso dos EUA, escrito no Artigo 6 do Tratado de Não-Proliferação, de reduzir o papel das armas nucleares. Ele seguiu negociando com a Rússia um sucessor para o Tratado de Redução de Armas Estratégicas até o fim deste ano, e colocou a questão de não-proliferação no alto da agenda da ONU e do G-20.

Os críticos dizem que essas realizações, e também os esforços para desbloquear impasses no Sudão e Mianmar, foram conseguidas ao preço de desistir de clareza moral sobre direitos humanos. Mas as proclamações públicas são menos eficazes que estratégias de longo prazo para promover os direitos humanos. O discurso de Obama em Gana, cuidadosamente localizado num país africano que teve uma mudança de governo democrática bem-sucedida, ilustrou essa abordagem.

Críticos de esquerda se queixaram de que ele não foi capaz de fazer o Congresso aprovar uma lei dura de energia antes da conferência sobre mudanças climáticas em Copenhague. Mas Obama ajudou a persuadir a China e a Índia a anunciarem esforços proveitosos, e ele estabelecerá uma meta dos EUA para reduzir as emissões de gases-estufa que deve evitar o fracasso dessa conferência.

No entanto, o maior teste estará no futuro do Afeganistão.

Obama conseguirá combinar o poder duro e o brando numa estratégia de poder inteligente que funcione? O reforço das tropas e o aumento da ajuda ao desenvolvimento provocarão estabilidade suficiente para sua planejada retirada começar em 2011? O governo afegão conseguirá oferecer a segurança que protegerá seus cidadãos contra a violência do Taleban? Ou o Afeganistão se revelará um atoleiro que definirá a presidência de Obama? No fim de seu primeiro ano no cargo, Obama deve saber que o Afeganistão será o principal teste pelo qual historiadores futuros classificarão sua política externa.

Joseph S. Nye, Jr., é professor emérito na Faculdade de Governo Kennedy da Universidade Harvard, nos EUA

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