Conflito deixa centenas de corpos em ruas de cidade da Nigéria

As autoridades nigerianas recolheram na sexta-feira centenas de corpos das ruas da cidade de Maiduguri, no norte do país, após dias de confrontos com membros de uma seita islâmica radical.

IBRAHIM MSHELIZZA, REUTERS

31 Julho 2009 | 16h00

Funcionários do governo do Estado e do Ministério da Saúde empilhavam em caminhões os corpos, alguns deles inchados depois de permanecerem nas ruas por dias, enquanto policiais e soldados faziam patrulha.

"Até ontem tínhamos mais de 200 corpos", disse à Reuters Aliyu Maikano, funcionário da Cruz Vermelha Nigeriana para o controle de desastres na região nordeste. Ele acrescentou que os corpos ainda estavam sendo recolhidos.

O número de Maiduguri eleva para ao menos 300 o total de mortos na violência deflagrada em vários Estados do norte da Nigéria desde domingo.

As autoridades esperam que a morte do líder da seita, Mohammed Yusuf -- cujo movimento Boko Haran defende a adoção mais ampla da sharia (a lei islâmica) no país mais populoso da África --, colocará um fim aos seis dias de revolta promovidos pelos seguidores dele.

Yusuf, de 39 anos, foi morto a tiros numa operação policial na noite de quinta-feira. Autoridades afirmaram que ele morreu num tiroteio durante uma tentativa de fuga, mas grupos de direitos humanos condenaram o que parece ter sido uma execução.

Centenas de pessoas reuniram-se para ver o corpo de Yusuf, estendido no chão na frente da sede de polícia de Maiduguri ao lado dos corpos de outros supostos membros do Boko Haram.

"Quero ver o corpo de Mohammed Yusuf para conhecer o homem que nos causou tanta dor e dificuldade. Que a alma dele apodreça no inferno", disse Nasir Abba, morador de Maiduguri, em cujo bairro aconteceu um dos confrontos mais pesados.

Eric Guttschuss, pesquisador do Human Rights Watch para a Nigéria, descreveu o assassinato de Yusuf como "exemplo chocante do desacato insolente da polícia nigeriana ao Estado de direito".

A Anistia Internacional pediu por uma investigação e disse que os responsáveis pelas mortes ilegais deviam ser levados à Justiça.

Um repórter da Reuters havia contado mais cedo 23 corpos cobertos por sangue no que pareciam ser feridas por balas, entre eles o de Alhaji Buji Fai, antigo comissário estatal para assuntos religiosos que se acreditava simpatizante de Boko Haram.

"Alhaji Buji Fai foi morto junto com outros fugitivos do Boko Haram numa troca de tiros esta manhã na estrada Benishek-Maiduguri", disse Isa Azare, porta-voz do comando da polícia em Maiduguri.

Maikano, funcionário da Cruz Vermelha, disse que 182 pessoas estavam sendo tratadas em dois hospitais de Maiduguri por ferimentos a bala, golpes de facão, ferimentos por faca e espancamento.

"Esses são civis...não identificamos nenhum membro de seita muçulmana entre os feridos", disse ele, acrescentando que os médicos e enfermeiros militares estavam ajudando os médicos civis.

Ele afirmou que cerca de 3.500 desabrigados permaneciam abrigados em barracas, mas, encorajados pela morte de Yusuf e de outros membros importantes da seita, muitos começaram a voltar para casa.

O levante começou no domingo, quando membros do grupo - levemente inspirado no Taliban, do Afeganistão, e cujo nome significa "a educação ocidental é pecaminosa" - foram presos no Estado de Bauchi sob suspeita de planejar um ataque a um posto policial.

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