Consenso em Davos: é cedo para tirar estímulos

''Há recuperação estatística e recessão humana'', diz Summers

Fernando Dantas, O Estadao de S.Paulo

30 de janeiro de 2010 | 00h00

A recuperação da economia mundial ainda é frágil, e é muito cedo para as principais economias pensarem em retirar os maciços impulsos ficais e monetários que ajudaram a tirar o mundo da beira do abismo causado pela crise financeira global. Esse foi um dos pontos de consenso entre o Fundo Monetário Internacional (FMI) e representantes das principais economias do mundo, na mais densa discussão sobre o futuro da economia mundial nos quatro dias da programação do Fórum de Davos.

"Temos uma recuperação estatística e uma recessão humana", disse Lawrence Summers, principal assessor econômico da Casa Branca, que participou do debate. Summers quis dizer que o crescimento no PIB trimestral dos países ricos - os Estados Unidos cresceram 5,7% em termos anualizados no quarto trimestre, a maior taxa desde 2003 - deriva da base depreciada de comparação, e não se traduziu numa melhora no front do emprego. O alto desemprego nos países ricos, apesar da retomada, é uma das principais preocupações este ano em Davos.

Christine Lagarde, ministra da Economia da França, e Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), foram dois dos debatedores que expressamente defenderam que é cedo para retirar os estímulos fiscais e monetários das principais economias. Observando que há riscos tanto em prolongar demasiadamente os estímulos como em reduzi-los prematuramente, Strauss-Kahn deixou bem clara a posição do FMI: "O risco de retirar antes da hora é muito maior". Lagarde disse concordar com Strauss-Kahn, e enfatizou a grande dificuldade das autoridades econômicas mundiais em acertar o timing dos movimentos simultâneos de cuidar da recuperação econômica, reformar o sistema financeiro e restaurar as finanças públicas.

Para Strauss-Kahn, a recuperação mundial veio mais cedo e mais forte do que o esperado, mas é "frágil", porque ainda depende em larga escala dos gastos públicos, e não da demanda privada. Segundo ele, a estratégia de retirada do gigantesco estímulo econômico apresenta um risco assimétrico, já que no cenário de uma saída antecipada apresenta perigos muito maiores do que o inverso.

Strauss-Kahn notou que o FMI não prevê um "duplo mergulho", uma nova recessão nas economias ricas depois da contração de 2009. Porém, caso o duplo mergulho ocorresse, não haveria muito o que fazer - o déficit público desse países já foi expandido para níveis críticos, e as taxas de juros estão baixíssimas ou zeradas.

"Nossa recomendação é que não se retire (o impulso) cedo demais, e que tudo o que foi programado para 2010 seja implementado", ele insistiu. Segundo John Lipsky, vice-diretor-gerente do FMI, as principais economias do mundo se comprometeram a fazer um impulso fiscal discricionário de 2% do PIB em 2009, e cumpriram. Para 2010, o combinado é um novo impulso de 1,5% a 2% do PIB.

Num estado de espírito totalmente diferente, Zhu Min, vice-governador do Banco do Povo da China (banco central), disse que a China cresceu 8,7% em 2009 e deve crescer entre 8% e 9% em 2010, mas que a maior preocupação não é a velocidade de crescimento, mas sua qualidade.

Ele explicou que já há sinais de melhora dessa qualidade, com o consumo tomando um pouco do papel do investimento como principal motor de crescimento na China.

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