Consumidor confunde hidropônico e orgânico

Cultivados em estufas, hidropônicos usam compostos químicos e exigem água tratada

O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2011 | 03h05

Um engano comum entre os consumidores de hidropônicos é considerar esses alimentos orgânicos. Na verdade, eles são bastante diferentes.

Orgânicos são cultivados no solo e não usam agrotóxicos (defensivos) nem adubação química. Como adubo, somente composto orgânico. Para controle de pragas, usam os fitossanitários (defensivos à base de elementos naturais) e controle biológico -como, por exemplo, um predador natural contra determinada praga.

Já os hidropônicos não são cultivados no solo, e sim na água, dentro de estufas. A rigor, são nutridos à base de um composto químico e, quando preciso, são usados também defensivos agrícolas. Essa solução nutritiva contém os 16 elementos químicos que a planta precisa para se desenvolver, entre eles nitrogênio, fósforo, potássio, cobre, zinco, boro, silício, carbono, oxigênio, manganês e magnésio.

O uso da água em larga escala pelos hidropônicos também os difere dos orgânicos - uma produção de 12 mil maços de folhas, por exemplo, exige o uso diário de 130 mil litros de água no alto verão.

"Tenho muito menos pragas do que tinha quando cultivava em solo. Mas, como as estufas não são fechadas, os insetos voadores entram, principalmente no verão. Nesses casos, às vezes, preciso borrifar um defensivo agrícola. Mas uso 5% da quantidade que usava quando cultivava em solo. E tenho trabalhado muito com controle biológico e com fitossanitários, como o óleo de Nim", diz o produtor paulista Hideo Kuramoto, de Itapecerica da Serra.

Potabilidade. "O hidropônico tem várias vantagens em relação ao convencional e ao orgânico. A maior delas é que a água utilizada no sistema tem de passar por uma análise e apresentar um nível mínimo de potabilidade. No convencional e no orgânico, ninguém faz análise da água", diz Antônio Bliska Junior, pesquisador da Unicamp. A prática, no entanto, também não é objeto de lei ou de norma. "Os produtores fazem porque, se não souberem com que água estão lidando, não vão conseguir compor a solução."

Geralmente, eles usam água de poços (caipiras, semi-artesianos ou artesianos), mas podem usar de represas e minas.

Existe mais de uma forma de cultivo hidropônico. O que há em comum é a utilização de uma estufa, sem a presença de solo. O sistema mais usado para folhas é composto por canaletas de PVC alimentadas por um tanque de água, que é bombeada pela estrutura e retorna ao tanque (mais informações nesta página). A mesma água pode ser usada de 15 a 60 dias, dependendo do cultivo, do clima e das condições externas. Depois, deve ser descartada.

O maior problema dos hidropônicos é um fungo chamado Pitium, segundo o agrônomo Romero José de Andrade, da Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), ligada ao Ministério da Agricultura.

"As canaletas têm de ser higienizadas toda vez que forem usadas e a solução nutritiva tem de estar equilibrada. A hidroponia é uma agricultura de precisão, que não admite erro. Como todo o sistema é artificial, tudo tem de ser milimetricamente balanceado."

"A estufa, do mesmo jeito que protege, pode ser um problema se o produtor errar. É um ambiente que, sem manejo adequado, pode favorecer uma praga ou uma doença. As consequências do erro são mais drásticas", acrescenta Bliska Jr., da Unicamp.

Nitratos. Há grande preocupação sobre a concentração de nitratos nos hidropônicos, pelo uso intensivo de nitrogênio.

"Do peso seco de uma planta, calcula-se que 45% seja carbono, 45% oxigênio e 5% hidrogênio. Os outros 5% são os fertilizantes minerais, sendo boa parte nitrogênio", explica Marcelo Silvestre Laurino, fiscal federal agropecuário do Ministério da Agricultura e coordenador da Comissão da Produção Orgânica de São Paulo. "O nitrogênio é transformado em nitrato que, no intestino humano, vira nitrosamida e nitrosamina, duas substâncias reconhecidamente cancerígenas."

"O produto hidropônico, quando mal manejado, acumula nitrato. Mas, no Brasil, isso é raro. Há muita luz e a planta metaboliza isso rápido", afirma Luis Felipe Villani, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC).

"Isso é possível, tanto no convencional quanto no hidropônico, em caso de cultivo mal manejado. Igualmente, não há como garantir que um cultivo orgânico não carregue patógenos. O caso recente dos brotos de feijão na Europa é uma prova disso. O composto orgânico, quando mal feito, também pode contaminar", pondera Bliska Jr. / KARINA NINNI

Solução que nutre a produção de Hideo Kuramoto, em Itapecerica; o tom vermelho é dado pelo ferro

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