'Consumo da Ásia igual ao dos EUA tornará a região inviável'

Especialista propõe restrições, do uso de carros ao de energia, para evitar 'catástrofe'

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2011 | 03h06

Os asiáticos não podem ter o sonho de consumo americano e devem trilhar um caminho muito mais frugal se quiserem ter um modelo de desenvolvimento sustentável, defende Chandran Nair, fundador do Global Institute for Tomorrow, de Hong Kong, e autor do livro Consumptionomics - Asia's Role in Reshaping Capitalism and Saving the Planet (Consumptionomics: O Papel da Ásia na Reformulação do Capitalismo e Salvação do Planeta, em tradução livre).

Para isso, ele defende governos fortes, que imponham restrições à propriedade ou ao uso de uma série de bens, de carros ao tamanho das casas, passando por energia e consumo de determinados tipos de alimentos.

O que define os limites para a região é seu grande número de pessoas. "A população atual da Ásia é de 3,5 bilhões de pessoas, mas só 500 milhões estão na periferia do consumo. Se a maioria dos asiáticos começar a consumir como americanos, você pode imaginar o que vai ocorrer?", pergunta Nair, que nasceu na Malásia, é filho de pais indianos e hoje vive em Hong Kong. A seguir, os principais trechos da entrevista ao Estado.

Quão sustentável é a emergência do consumo na Ásia?

O ponto principal do meu livro é que se, nos próximos 50 anos, 5 bilhões de asiáticos aspirarem consumir como americanos, isso terá efeitos catastróficos. Nós temos de parar agora, porque a maioria da população vai sofrer, especialmente os que vivem em comunidades pobres. Na Ásia, nós temos a responsabilidade de criar um modelo diferente do baseado na ideia de que podemos consumir tudo e deliberadamente não cobrarmos o preço adequado pelo uso de recursos naturais. Questões como uso da água e da terra, a destruição de florestas, a emissão de gases poluentes, tudo isso deveria se refletir no preço dos produtos que consumimos. Primeiro, nós temos de começar a precificar as coisas de maneira correta para proteger os recursos naturais.

Mas se o preço dos recursos naturais, como a água, subir, isso não terá um efeito negativo sobre a população mais pobre?

Não, pode ser exatamente o oposto. O preço deve ser diferenciado para atividades como uso doméstico, agrícola, industrial, etc. Se você começar a pegar água de um rio para uso industrial sem pagar um preço adequado, a população ribeirinha pobre será afetada, pois não será mais dona da água. Se os governos da Ásia não fizerem isso, os pobres não vão ficar sentados por muito tempo - e eles são a maioria. As condições estão piorando. Eu estive na Índia na semana retrasada e vi isso em todos os lugares. É um problema, porque nada é precificado de maneira apropriada.

É um modelo que leva à exaustão de recursos?

Sim, porque criamos um mundo econômico no qual podemos pegar tudo de graça. Nós acreditamos que, se pegarmos tudo de graça e transformarmos em bens e serviços, todo mundo estará melhor. Mas não podemos comer computadores e iPads. Precisamos de alimentos e água todos os dias. Os donos de carros, por exemplo, compram veículos sem pagar o seu preço real. Se colocarmos as emissões, energia e recursos, o preço de um carro deveria ser muito mais alto. Os carros andam em estradas e os donos de carros não pagam pela construção dessas estradas. O governo simplesmente pega dinheiro dos contribuintes. É possível ter um modelo apropriado de preços e taxas sobre o uso de veículos e usar a arrecadação na construção de transporte público. Outro exemplo é a pesca. Nossos oceanos estão vazios. Ninguém paga pelo direito de pescar, não há nenhum controle.

Mas os que estão saindo da pobreza na Ásia sonham o "sonho americano".

Eles passaram por uma lavagem cerebral. Nossos governos precisam dizer que não podemos ter isso. A população atual da Ásia é de 3,5 bilhões de pessoas, mas só 500 milhões estão na periferia do consumo. Se a maioria dos asiáticos começar a consumir como americanos, você pode imaginar o que vai ocorrer? Nós nunca chegaremos ao ponto em que a Ásia possa viver como a América. Na metade do caminho nós encontraremos a catástrofe. Os que forem deixados para trás serão deixados em condições muito ruins e isso criará imensos deslocamentos sociais. Os EUA e a Europa nunca enfrentaram esse tipo de possibilidade em sua história, porque eles têm populações pequenas e controlavam todos os demais. Esse não é um discurso anticolonialista, mas eles tiveram acesso a recursos por séculos. Agora nós temos um problema diferente, porque somos muitos e temos poucos recursos. Nosso foco deve ser como usá-los lentamente e com cuidado.

De um ponto de vista moral, é legítimo restringir o consumo dos asiáticos e não o dos norte-americanos e europeus?

Essa é a questão chave do meu livro. Minha visão é a de que não é possível limitar os americanos porque seu governo é fraco. Além disso, as democracias estão paralisadas por causa dos curtos ciclos eleitorais, que fazem com que os políticos não adotem medidas duras para questões de longo prazo. Outra razão pela qual o Ocidente não vai fazer isso é que é muito difícil dizer às pessoas que têm que elas precisam ter menos. Na Ásia, não é uma questão moral as pessoas terem menos, porque a minoria que hoje tem está privando a vasta maioria de ter, e a disputa política ficará mais intensa. Há uma oportunidade de encontrarmos uma nova direção e, para isso, os governos precisam ser duros.

Que tipo de medidas os governos asiáticos deveriam adotar?

Precificar corretamente os recursos naturais. E proibir determinadas coisas. Os governos sempre intervieram, mas, nas últimas duas ou três décadas, a noção liberal, especialmente americana, de que se pode ter tudo, passou a imperar nesta parte do mundo também. Mas os governos dizem que é proibido beber e dirigir, fumar em locais fechados ou matar elefantes. Portanto, é preciso ter restrições, por exemplo, em relação ao uso de certos produtos químicos, à propriedade de carros, ao consumo de determinados peixes, ao tamanho de casas, ao tipo de energia que se pode usar, todo o tipo de coisas que podem afetar a sustentabilidade. É necessário usar mecanismos de preço, instrumentos econômicos e proibições para definir o que é proibido.

O que acontecerá se os asiáticos perseguirem o sonho americano?

Atualmente, 350 milhões de americanos comem 9 bilhões de aves todos os anos. Na Ásia, 3,5 bilhões de pessoas consomem 16 bilhões de aves. Se em 2050 os asiáticos comerem a mesma quantidade per capita que os americanos, eles consumirão 120 bilhões de aves. A China é o maior mercado automobilístico do mundo, mas tem apenas 150 carros para cada mil habitantes. Nos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), a relação é de 750 por mil habitantes. Na Índia, são apenas 35. Se os chineses e indianos tivessem o mesmo padrão da OCDE, a Ásia teria 2 bilhões de carros. Isso é insustentável, e não apenas porque agrava a poluição. De onde virá a energia para movimentar esses carros? Mas nós fingimos que, de alguma maneira, os seres humanos podem encontrar uma solução. O problema é que estamos em águas nunca antes navegadas em termos da relação entre engenho humano e população. E os números são assustadores.

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