Ricardo Stuckert/Instituto Lula
Ricardo Stuckert/Instituto Lula

Conta do sebastianismo

Mais uma vez retorna o coro do 'volta, Lula', mas a mudança teria alto custo

Marco Aurélio Nogueira,

12 Abril 2014 | 16h49

Política é cálculo e oportunidade, paixão e frieza. Iniciativa, capacidade de preparar o futuro, domar ventos e crises, interagir com a vida. Passa por reconhecer erros e assumir responsabilidades. É ação coletiva: carreiras solo dificilmente progridem e o companheirismo, as lealdades, as amizades pesam de forma determinante. O coro "volta, Lula", repetido à boca pequena e sempre mais recorrente, é um convite à reflexão sobre a natureza da política e especialmente sobre as chances de sucesso de suas operações, custos e resultados devidamente considerados.

Para começar do começo: por que cresce o coro? Sondagens de opinião não indicam declínio categórico do prestígio da presidente. Tem havido certas inflexões preocupantes, é verdade, mas seu nome permanece forte. Por que então pedem a volta do ex-presidente? Por que tamanha insistência de Lula em dizer que Dilma é a "sua" candidata, pois é a "melhor pessoa para vencer as eleições" e ele, Lula, se pudesse registraria em cartório a decisão de não sair candidato? Em sua visão, tudo não passaria de enorme boataria, não de uma intenção.

Se o que atiça o coro não é o ex-presidente, então temos um problema: há gente demais insatisfeita com o desempenho presidencial e insegura com a real capacidade eleitoral de Dilma. Petistas, empresários, banqueiros e peemedebistas pedem o retorno do ex-presidente. Há, também, os que usam a situação para negociar novos espaços, promover acertos de contas ou simplesmente tumultuar o ambiente. Mas é um fato que o mal-estar está instalado em Brasília. Motivos certamente não faltam. Problemas desgastantes sucedem-se sem parar. Petrobrás, crise energética iminente, André Vargas, inflação emergente, CPIs, riscos e tropeços da Copa: tudo desaba sobre a presidente e se converte imediatamente em fato político. E Dilma, pouco afeita aos humores e exigências da política, tende a submergir, a silenciar ou a tartamudear. Não passa confiança, nem firmeza.

Lula foi direto ao ponto: seria preciso "ir pra cima", enfrentar a oposição, defender o governo "com unhas e dentes", reagir antes que seja tarde demais. Salvar a presidente é garantir o futuro. Como há um componente congelado no cenário – o estilo, a personalidade e a biografia de Dilma, que não mudarão –, o contraste se agiganta. Dilma é enfezada, não tem carisma nem empatia. Lula é puro charme, transpira humildade e autenticidade, é franco, simples e didático. A astúcia em pessoa. Levanta multidões, agrada e sabe cortejar quem dele se aproxima. Alimenta uma legião de fãs e muitas expectativas. Perto dele, Dilma é opaca, não agrega nem entusiasma.

Os "sebastianistas" acreditam que Lula descongestionaria o ambiente, abriria novos espaços e daria novo fôlego a tudo. Animal político por excelência, Lula gerenciaria com mais competência as relações Estado/sociedade, acalmando tanto a movimentação social quanto o desarranjo e a pressão político-institucional, o que Dilma não tem conseguido fazer. Estão preocupados com o déficit de articulação e coordenação política que se evidenciou no País e ameaça a estabilidade econômica, a intermediação política, a continuidade das reformas, os arranjos político-sociais estruturados desde 2002 e, evidentemente, os negócios. Sem a resolução desse déficit, ficaria abalado o pacto informal entre as grandes empresas nacionais e multinacionais, os bancos, o agronegócio e a grande agricultura, a política tradicional e parte dos interesses organizados do mundo do trabalho.

Como esse pacto foi articulado por Lula, por que então não pedir a ele que embale a criança e injete oxigênio no que está ofegando? Com ele, seria possível voltar a sonhar; com Dilma, o sono continuaria agitado, instável. A aposta é que Lula tem personalidade, estilo e biografia para resgatar aquilo que fez a fortuna de seus dois governos, atualizando-os à nova fase do País.

Trata-se de uma construção mental que excita os ambientes, criando a sensação de que existe interna corporis, ao alcance da mão, uma alternativa para que o projeto de poder se reponha em melhores condições.

Há, porém, um custo alto na hipotética operação. Primeiro, porque a mera cogitação dela ajuda a enfraquecer o governo e a piorar a situação. Quanto mais Lula diz não querer o cargo, mais passa a impressão de que nem mesmo ele acredita em Dilma. Segundo, porque ela escancararia uma grosseira falha de estratégia: teria sido um erro entronar Dilma como sucessora de Lula. Com ela, o País não seguiu na mesma toada. Ao ser "deslulizado", entristeceu. E o pacto que sustenta o governo ficou com maiores dificuldades operacionais. Terceiro, porque nunca é fácil trocar o piloto com o avião em pleno voo. Turbulências e trepidações serão certamente inevitáveis, figurinos e discursos precisarão ser refeitos às pressas, aliados perdidos terão de ser novamente agregados. Quarto, porque Lula, precisamente por ter muita sagacidade e talento (além de muito capital político), deve estar pensando se vale a pena entrar na disputa agora. Ele precisaria sacrificar Dilma, o que não é fácil nem propriamente dignificante. E precisaria concorrer num quadro que não se mostra tão tranquilo assim, ou seja, no qual teria tanto possibilidades de vitória glorificadora quanto de derrota.

Há, por fim, uma questão que complica o cálculo. Bastaria um bom timoneiro para que o navio volte a singrar os mares sem sobressaltos? A qualidade da nave e da marujada também pesa, e quase sempre de modo categórico. O mesmo vale para a cartografia que orienta o capitão: um mapa malfeito, desatualizado ou imperfeito pode levá-lo na direção de rochedos implacáveis ou deixá-lo à deriva. Como se trata de política, o mapa é o que costumamos chamar de projeto. E ele não existe de modo claro e suficiente.

MARCO AURÉLIO NOGUEIRA É PROFESSOR TITULAR DE TEORIA POLÍTICA E DIRETOR DO INSTITUTO DE POLÍTICAS PÚBLICAS E RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA UNESP

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