Continuam as buscas por desaparecidos em Itaoca

Famílias inteiras desapareceram nas torrentes formadas pela tromba dágua que atingiu o município de Itaoca, no Alto Ribeira, a 343 km de São Paulo, entre a noite de domingo, 12, e a madrugada de segunda-feira, 13. No final da tarde desta quarta-feira, 15, a Defesa Civil e a Polícia local contabilizavam 13 mortos e 13 desaparecidos, elevando para 26 o número de possíveis vítimas. O corpo de Iago Henrique da Mota, de 4 anos, um dos desaparecidos, foi encontrado no rio Ribeira, em Iporanga. Familiares foram chamados e o reconheceram. O corpo de um desconhecido que está no Instituto Médico Legal (IML) de Registro pode ser o de Luciano Rodrigues dos Santos - a família chegaria durante a noite na cidade para a confirmação. Havia informação de mais pessoas tidas como desaparecidas à espera de checagem.

JOSÉ MARIA TOMAZELA, Agência Estado

15 de janeiro de 2014 | 19h44

Sentado numa rocha, o operador de máquinas Adriano Santos Cardoso, de 20 anos, tinha o olhar perdido em direção ao ponto onde ficava a casa de sua mãe, Silvana dos Santos, de 38 anos. A casa desapareceu no turbilhão que virou o córrego Guarda Mão, levando sua mãe, o marido dela Arlindo, 44, padrasto de Adriano, sua avó, dona Darci, 77, e os irmãos Samuel, 16, e Suelen, 9. Apenas o corpo de Silvana tinha sido encontrado até a tarde. O rapaz que perdeu quase toda a família conta que há dois anos mora e trabalha em Joinville (SC).

"O telefone tocou de madrugada. Disseram que eu tinha de vir para Itaoca o quanto antes, pois tinha acontecido algo. Não entraram em detalhes, mas vi o noticiário. Perdi toda minha família. Não sei como estou aqui." Adriano passou a manhã andando de um lado para outro, à espera de informações sobre os quatro familiares ainda desaparecidos. "Preciso resolver isso primeiro, e depois o que vai ser." Quem ofereceu água ao rapaz foi Berenice Dias dos Santos Rosa, de 29 anos, vizinha que teve a casa atingida, mas continuou em pé. "Quando vi a água chegando, peguei minha filha (Brenda, 2 anos), chamei meu marido e fomos para a parte alta. Perdemos lavadora, móveis e roupas, mas estamos vivos."

O marido de Berenice, o leiturista da Sabesp Drauzio Ribas Rosa, conta os mortos e desaparecidos do Guarda Mão pelas casas que não existem mais. "Naquela foram três pessoas, o Luciano, a Michele e a Manuele. Na outra ali eram oito, só acharam o seu Dimas, o resto da família está sumido." Drauzio vai contando nos dedos: "Na casa do seu Odair foram cinco, só acharam ele e a Michele. Ali tinha outra casa, com quatro pessoas, inclusive um casal de crianças, mas só acharam a mãe. Acho que muito corpo não vai aparecer mais"

Moradores conseguiram salvar pessoas que se enroscaram em galhos e árvores. "Pegamos uma menina, mas o homem, seu Dimas, acabou morrendo", conta Cleusires Ribas. O homem estava sob um monte de galhos, foi retirado com vida, mas no meio da tragédia o socorro médico não deu conta. Quando chegou, sete horas depois, ele já havia morrido. O padrinho de Cleusires salvou dois idosos, Amadeu Camargo, de 82 anos, e sua mulher Conceição, de 67, que estavam presos em casa com água até o pescoço. Outra família - dona Malvina, a filha dela Laís e o neto Vital - foram resgatados após se agarrarem nos galhos de uma jabuticabeira.

Limpeza

Cerca de 100 casas e estabelecimentos comerciais foram afetados e 19 ruíram completamente. Mais de trezentas pessoas continuam desalojadas e 20 estão abrigadas numa escola estadual. Lojas, mercearias, açougues e residências, ou caíram, ou estão tomadas por lama e entulho. Máquinas e tratores removem a lama e o asfalto é lavado. A base da Polícia Militar e o único cartório de notas e registro civil da cidade também foram tomados pelo barro. "Salvei um carro e uma TV, o resto foi tudo", disse o ex-tabelião Claudio Oliveira de Lima, dono do prédio do cartório, da loja agropecuária vizinha e morador da casa ao lado. Uma montanha de paus triturados ainda obstrui parcialmente o leito do Palmital.

A Secretaria da Saúde do Estado enviou mais uma equipe com médico e enfermeiras com vacinas e remédios para atender a população. A Cruz Vermelha está na cidade com 14 integrantes, divididos em equipes de enfermeiros, socorristas e de ajuda humanitária.

Mais conteúdo sobre:
chuvasItaoca

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.