Continuidade do movimento tem causas políticas, acusa professor

Na federal do Rio Grande do Norte, que não aderiu, a decisão foi tomada por plebiscito e não por uma minoria, diz docente

OCIMARA BALMANT, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2012 | 03h05

A continuidade da greve nas universidades federais é uma decisão política que reflete a vontade de uma minoria dos professores, decidida em assembleias com pouca participação docente. A avaliação é do professor Wellington Duarte, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), uma das duas únicas que não aderiu à paralisação.

Lá, foi realizado um plebiscito para decidir sobre a greve e 68% dos professores optou pela continuidade das aulas. Um segundo levantamento - feito em 30 e 31 de julho - mostrou que os docentes aceitavam a proposta do Ministério da Educação (MEC) e seguiam decididos a não parar.

Nas outras universidades, a adesão à greve e a manutenção da mesma são decididas em assembleias gerais, convocadas pelo sindicato e com pouca representação docente.

Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por exemplo, 200 professores compareceram ontem a uma assembleia realizada, o que representa apenas 5% dos 4 mil que lecionam na instituição. O resultado foi praticamente unânime: 191 pediram a manutenção da greve.

"Nas assembleias, só participa e fala quem pensa como eles", afirma Duarte, que também é vice-presidente do sindicato local. A outra instituição que não teve as aulas interrompidas pelo movimento grevista é a Universidade Federal de Itajubá (Unifei), em Minas.

Racha. Nas demais 57 universidades federais espalhadas pelo País, uma parte ou a totalidade dos docentes está há quase 80 dias sem trabalhar. E, além do debate sobre a representatividade das assembleias, há uma desavença entre dois sindicatos de professores, o que aponta para um racha no movimento.

De um lado, está o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes), que representa a maioria das instituições; do outro, a Federação de Sindicatos de Professores de Instituições Federais (Proifes), que congrega 5 das 57 universidades paralisadas e também a UFRN.

Em reunião na quarta-feira com os Ministérios do Planejamento e da Educação, as diferenças ficaram evidentes. O Andes afirmou que 50 assembleias realizadas em instituições do País sinalizaram pela continuidade da greve.

A Proifes apresentou um resultado de um plebiscito em que, segundo a federação, votaram 5.222 docentes de 43 instituições: 74% pedem o fim da greve.

Esses docentes teriam ficado satisfeitos com a contraproposta apresentada pelo governo, que estabeleceu reajuste de 25% a 40% - porcentual considerado satisfatório dentro do contexto de crise internacional. "O Andes não aceita porque há um radicalismo e uma posição política", afirma Duarte.

Uma atitude que, segundo o presidente do Proifes, Eduardo Rolim, tolhe a autonomia dos docentes. "Professor universitário não é gado, não pertence a ninguém e tem consciência própria", disse ele após a reunião com o governo. "A greve não é de nenhuma entidade e sim dos professores", continuou.

Processo. O Andes diz que o Proifes é aliado ao governo e nega que exista direcionamento nas decisões. "O processo é feito em assembleia para que haja debate e a possibilidade de convencer o outro ou ser convencido por ele", diz Marinalva Oliveira, presidente do Andes. "Isso é democracia." Ela argumenta que a frequência nas assembleias do sindicato varia de acordo com a instituição, mas chega a 50% dos docentes nas menores - todas com atas de participação, em que constam o nome dos presentes.

A professora argumenta que a consulta eletrônica realizada pela entidade adversária não é confiável - segundo ela, outras pessoas, além de professores universitários, podem ter participado da enquete.

"O governo é autoritário e intransigente e a greve continua", declara a professora. "Se perdermos o ano, a responsabilidade é toda do governo."

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