Controlar poluição do ar pode acelerar aquecimento global

Alguns poluentes resfriam o clima ao dispersar a radiação; saída é enfatizar controle de gás que aquecem

Afra Balazina, O Estadao de S.Paulo

30 Outubro 2009 | 00h00

Controlar a poluição do ar que provoca danos à saúde da população, principalmente nas grandes cidades, pode acelerar o aquecimento do planeta nas próximas décadas. Apesar de ainda haver incertezas sobre o assunto, esse é o resultado apontado até agora por estudos. O assunto é tema de três artigos publicados pela revista Science.

A poluição do ar afeta o clima de várias formas. Alguns poluentes absorvem radiação solar, causando aquecimento, enquanto outros resfriam, ao dispersar radiação e reduzir a quantidade de luz que atinge a superfície da Terra. Além disso, os gases lançados pelo homem reagem entre si e podem gerar mais aquecimento.

O cientista Drew Shindell, da agência espacial americana (Nasa), juntamente com outros pesquisadores, sugere que a queda das concentrações de aerossóis de sulfato e o aumento da concentração de fuligem contribuíram notavelmente para o rápido aquecimento do Ártico em décadas recentes.

Shindell explica que o metano, o monóxido de carbono e a fuligem, por exemplo, provocam aquecimento. Já o dióxido de enxofre, a amônia e óxidos de nitrogênio causam resfriamento. Ele disse ao Estado que o aquecimento vai depender das medidas concretas tomadas para limpar o ar e que pode variar de região para região.

Ele cita como exemplo os veículos a diesel. A transição dos combustíveis com alto teor de enxofre - usados em muitos países em desenvolvimento, entre eles o Brasil - para combustíveis com baixo teor de enxofre resultará em um ar mais limpo, porém aumentará o aquecimento. "No entanto, filtros de partículas só podem ser aplicados a veículos que usam combustíveis com pouco enxofre, e eles levam a um ar mais limpo e resfriam, pois capturam a fuligem, um agente do aquecimento climático", conta.

Em sua opinião, a estratégia ideal para evitar um colapso climático é colocar especial ênfase no controle das emissões de poluição atmosférica que também levam ao aquecimento. "Alguns poluentes contribuem simultaneamente para problemas de saúde, para a diminuição da produtividade agrícola e o aquecimento da Terra."

Ainda de acordo com ele, o impacto no clima resultante da limpeza de poluentes que esfriam o planeta deve ser compensado por reduções adicionais das emissões dos gases que provocam aquecimento.

Na opinião de David Parrish, da Agência Nacional de Oceanos e Atmosfera dos EUA (Noaa) e coautor de um dos artigos da Science, a mensagem fundamental é que os programas para melhorar a qualidade do ar e os para evitar a mudança climática não devem ser pensados como questões distintas.

MODELOS CLIMÁTICOS

Os pesquisadores ressaltam que os modelos climáticos precisam ser aprimorados. Eles afirmam que há problemas até nos usados no último relatório do painel do clima da ONU (IPCC). Segundo o pesquisador Carlos Nobre, membro do IPCC, de fato os modelos climáticos não levavam em conta como monóxido de carbono, ozônio e óxidos de nitrogênio reagiam e mudavam a quantidade dos gases-estufa. Para Nobre, no entanto, isso não significa que as projeções não têm validade. "Novos estudos mantêm o aquecimento em valores não muito distantes daqueles projetados." O próximo relatório do IPCC deve sanar, pelo menos em parte, essa lacuna.

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