Convidados treinam o apetite

Gael Greene e James Oseland, críticos convidados para o Paladar - Cozinha do Brasil, visitaram points de alta e 'baixa' culinária de São Paulo. Não se intimidaram nem com enroladinho de cachorro-quente. Acompanhe a incursão gastronômica da dupla

Cíntia Bertolino e Giovanna Tucci,

04 Junho 2009 | 09h16

Os convidados de honra do Paladar - Cozinha do Brasil estão chegando. Jeffrey Steingarten, O Homem que Comeu de Tudo, a insaciável Gael Greene, crítica de restaurantes, James Oseland, editor da revista americana Saveur, e a escritora e chef inglesa Anissa Helou vêm conferir o caldeirão de sabores e aromas nacionais. A primeira a chegar foi a lendária Gael Greene, colunista de restaurantes da revista New York por 40 anos. À altura de sua reputação, Gael desembarcou em São Paulo com um apetite enorme. Sob a árvore centenária do A Figueira Rubaiyat (R. Haddock Lobo, 1.738, 3087-1399) provou a costela de tambaqui e o polvo aplastado, mas gostou mesmo foi do baby beef. "Nem na Argentina comi carne tão tenra e suculenta." Bebericou caipirinha de maracujá com cachaça e de limão com saquê, depois de gracejar: "Nunca bebo no almoço, a menos que seja por pesquisa." A curiosidade da crítica é tão difícil de saciar quanto sua fome. Na terça-feira, em pleno almoço no Mocotó (Av. Nossa Senhora do Loreto, 1.100, 2951-3056), entre mocofava, torresmo, suco de açaí, atolado de bode, queijo de coalho, escondidinho de carne-seca, farofa, feijão de corda e tantas outras coisas, queria saber: "Aonde vamos jantar hoje?" Além dos textos ferinos, nos anos 70 e 80 Gael ficou conhecida pela voracidade, tanto por comida como por chefs talentosos, caso do francês Jean Troisgros, tio de Claude Troigros. Nunca escondeu seus affairs. Na segunda-feira ela jantou no D.O.M. (R. Barão de Capanema, 549, 3088-0761)."Foi uma refeição sofisticada, estilosa. Houve coisas que adorei, como o gel de tomate verde, e outras que detestei, como o camarão glaceado doce e cozido demais." Mas diz que gostou mesmo foi do chef. "Se ele estivesse disponível, levaria para casa." Com estilos completamente diferentes, Gael e o editor James Oseland, os dois que já haviam chegado, caminharam pela Liberdade no primeiro dia frio do outono, com jeito de quem já viu coisa parecida, mas curiosidade ilimitada. Ela, de bonezinho, para evitar ter o rosto fotografado. Compraram no Marukai. Oseland agarrou um potinho de natto como se fosse ouro. Gael estava ficando impaciente, queria fugir dos grandes mercados, queria comida de rua. Observadora, notou o sorvete Melona. Em segundos, ali estava Gael Greene, incógnita, cercada de postes vermelhos com lanternas suzuranto, chupando picolé. "Delicious!" Paramos em uma barraca para comer takoyaki (bolinho de polvo). Todos no mesmo prato, com a mesma pazinha. Os macios e agridoces takoyakis são grandes de deixar a bochecha cheia. "São bons, mas eu poderia passar anos sem isso", diz Gael, olhos lancinantes de gato. A essa altura Oseland abre a embalagem do natto recém-comprado. Põe shoyu e mistura bem, com hashi, os grãos de soja e o caldo parecido com glucose de milho, oferecendo ao grupo: "Experimenta. Ou você ama ou odeia." Depois se esbalda. Lambuza as mãos, deixa um grão escapar e, exagerando no "ó", exclama: "I love it!" O almoço foi num boteco tradicional, o Estadão, a pedido de Oseland, que apostou no virado: tutu de feijão, couve, pernil e farofa, muita farofa. "Pimenta?", pede, em português, e o garçom festeja o esforço. Faz uma autêntica farofa com os ingredientes e come na própria bandeja. "James, você é o rei da comida junkie", diz Gael, ardilosa. "Pelo menos é o rei", acrescenta. "Eu, eu sou... provavelmente a crítica mais velha ainda viva", e solta sua risadona. Gael não se encanta com os dois salgados que dividiu com o marido, Steve Richter, um enrolado de cachorro-quente e uma coxinha, mas adora guaraná. "Lembra ginger ale." Como namora um professor mineiro radicado em Nova York, Oseland está habituado à cozinha brasileira. Faz feijoada, nem sempre completa, "mas tem de ter bacon". Quando vem à tona o assunto em-casa-eu-cozinho-isso, Gael nos delicia com um resumo de seu cardápio trivial. "No café da manhã sempre tomo um iogurtezinho sem graça, não posso comer todos os dias o café da manhã que eu amo: incríveis ovos mexidos, batatas crocantes, brioche tostado, geleia de damasco... My fantasy! No almoço, faço uma salada e, no jantar, eu e o Steven comemos como se não houvesse amanhã, como se tivéssemos coração de garotos de 19 anos." Estávamos a caminho do Shopping Cidade Jardim, onde iríamos provar os sorvetes da Mil Frutas (Av. Magalhães de Castro, 12.000, 1º piso, 3552-5900). Se o almoço foi uma vontade dele, a sobremesa foi pedido dela. No luxuoso reduto paulistano das marcas hypadas Gael pede, com empolgação de menina, que Richter fotografe uma Barbie segurando um pedaço de bolo de chocolate, em uma doceria. Olha, Gail, um chapéu! Entra na loja e o acomoda na cabeça, agora sim, feliz de aparecer na foto. Provou sorvete de pitanga, de fruta-do-conde, de goiabada com queijo, doce de leite com queijo, tapioca... Resultado: quase tudo doce demais. "O de pitanga não, é perfeito." Oseland se apaixonou pelo sorvete de doce de leite com queijo. "É doce, mas é fabuloso", discorda de Gael. Ponha mil ingredientes na frente de Gael e ela dedicará a mesma atenção a todos. Obsessivamente perspicaz, mostra espantosa capacidade de resumir imediatamente o que achou de determinada comida. Não precisa conhecer pastel para saber que o que provou no Mercadão não é o melhor que se pode obter dele. Oseland também não descansa, come tudo (e o dia todo) com voracidade. Entra na livraria e sai com uma minibiblioteca sobre cozinha brasileira. Mas é mais relaxado, consegue dizer sem receio que o sorvete é muito doce e muito bom ou que prefere comida simples. Vão balançar nosso laboratório, esses dois.

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