Copom leva Selic de volta a um dígito: 9,75% ao ano

Mais uma vez dividido, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu nesta quarta-feira acelerar o passo e reduzir a Selic em 0,75 ponto percentual, para 9,75 por cento ao ano. Com esse corte, o quinto seguido, a autoridade monetária faz o juro básico do país voltar a um dígito.

REUTERS

07 Março 2012 | 21h38

A última vez que o Copom havia reduzido a Selic a um dígito foi em abril de 2010, quando ela foi para 9,50 por cento.

"Dando seguimento ao processo de ajuste das condições monetárias, o Copom decidiu reduzir a taxa Selic para 9,75% a.a., sem viés, por cinco votos a favor e dois votos pela redução da taxa Selic em 0,5 p.p.", afirmou o Copom em um comunicado mais enxuto do que o das últimas reuniões.

Em agosto passado, quando iniciou o processo de afrouxamento monetário ao pegar o mercado de surpresa ao reduzir a Selic em 0,50 ponto percentual, a decisão também não foi consensual: cinco diretores optaram pelo corte e dois pela manutenção da taxa em 12,50 por cento naquele momento.

Parte do mercado, sobretudo nos juros futuros, esperava um movimento mais forte do Copom nesta quarta-feira, com queda de 0,75 ponto percentual. Pesquisa da Reuters, no entanto, mostrou na semana passada que todos os 42 analistas consultados previam um corte de 0,50 ponto nesta quarta-feira.

Nos últimos dias, algumas instituições também mudaram suas projeções de juros, embutindo um corte mais agressivo na Selic, de 0,75 ponto. É o caso da Nomura Secutities e a Capital Economics.

UM DÍGITO

O BC deixou claro, na ata da sua última reunião do Copom, em janeiro, que queria buscar uma Selic de um dígito. Naquele momento o Copom informou que "atribui elevada probabilidade à concretização de um cenário que contempla a taxa Selic se deslocando para patamares de um dígito".

Na decisão de agora, a autoridade monetária retirou do comunicado a expressão "ajuste moderado" na Selic, adotada nos últimos meses.

O passo mais acelerado do BC agora busca estimular a atividade. Com o fraco desempenho econômico no ano passado, o governo uniu forças para garantir que haverá mais estímulos à economia e o discurso também passou por mais reduções de juros. O último alerta veio da indústria, um setor que tem mostrado fraqueza neste início de ano.

Na terça-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 0,3 por cento no quarto trimestre de 2011 em comparação com o terceiro, levando a expansão acumulada no ano a 2,7 por cento, abaixo da expectativa do governo.

Embora o desempenho tenha indicado que a atividade econômica começou a melhorar no fim do ano passado, o setor industrial seguia bastante fraco.

E nesta quarta-feira o IBGE mostrou que a indústria continua sofrendo, com a produção caindo 2,1 por cento em janeiro ante dezembro, a maior redução mensal desde dezembro de 2008 -no auge da crise financeira global.

Em audiência na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado no fim de fevereiro, o presidente do BC, Alexandre Tombini, havia avaliado que o Brasi crescia abaixo do seu potencial e que esse cenário permitia o afrouxamento da política monetária.

"Nos últimos três trimestres, incluindo este primeiro trimestre de 2012, o Brasil cresce abaixo do potencial...Não é por outra razão que o Banco Central vem ajustando sua taxa de juros nesse período, em função do crescimento da economia abaixo do PIB potencial", afirmou.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem deixado claro que o governo quer estimular a economia e garantir uma expansão entre 4 e 4,5 por cento ao ano.

E o comportamento da inflação também alimenta as expectativas de mais quedas nos juros, como os preços ao consumidor em São Paulo, que caíram mais do que o esperado no mês passado, em queda de 0,07 por cento, por conta dos alimentos, de acordo com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).

Pesquisa da Reuters mostrou ainda que o IPCA terá a menor alta para fevereiro desde 2007, retirando parte da pressão sobre o indicador usado para a meta oficial de inflação -de 4,5 por cento, com margem de 2 pontos percentuais para mais ou menos.

O "tsunami monetário" enfrentado pelo Brasil é outro fator, segundo especialistas, que podem incentivar mais quedas nos juros. Retirada parte do atratividade financeira das aplicações brasileiras, poderia ser menor a vinda de investidores estrangeiros.

(Reportagem de Tiago Pariz e Luciana Otoni)

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