Fabricio Motta/Divulgação
Fabricio Motta/Divulgação

Corpo de Walmor Chagas é encontrado em pousada

Morto com um tiro, em Guaratinguetá, ator era um dos atores mais completos de sua geração

JOÃO LUIZ SAMPAIO, JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2013 | 02h02

Morreu nessa sexta-feira, 18, aos 82 anos o ator Walmor Chagas. Seu corpo foi encontrado no final da tarde por um funcionário da pousada 7 Nascentes, de sua propriedade, em Guaratinguetá, no interior de São Paulo, caído na cozinha com um tiro na cabeça. A arma estava ao lado do corpo. Segundo a Polícia Civil, a morte ocorreu entre 15h30 e 18 horas e, apesar da suspeita de suicídio, ainda não estão claras as circunstâncias da morte.

Chagas sofria de diabete e seu último trabalho foi o filme Cara ou Coroa, de Ugo Giorgetti, que estreou no final de 2012 e tratava da rotina de uma companhia de teatro durante o período da ditadura militar. Na ocasião, em entrevista ao Estado, ele comentou a experiência. "Fizemos o filme em 2010 e nem me passava pela cabeça que chegaria ao público no dia dos meus 82 anos. Aliás, não imaginava que viveria tanto tempo. Sempre achei que ia morrer, sei lá, com 33 anos."

Walmor Chagas nasceu em Alegrete, no Rio Grande do Sul, em agosto de 1930. Cursou a Faculdade de Direito do Largo São Francisco e, em 1948, fez sua estreia no teatro com Antígona, de Jean Anouilh. Nos anos seguintes, participaria de montagens históricas do teatro brasileiro, ao lado de artistas como Cacilda Becker (com quem se casou e teve uma filha), Maurice Vaneau e Ziembinski. No cinema, sua estreia foi em 1965, em São Paulo S/A, de Luis Sérgio Person - o primeiro de uma série de quase 20 filmes, entre eles Xica da Silva (1975) e Asa Branca - Um Sonho Brasileiro(1980). Na televisão, atuou em mais de 30 novelas, séries e minisséries.

"Pode-se dizer que o teatro se tornou minha religião", dizia o ator. "Sempre foi necessário em minha vida. Tive alguns momentos em que juntei as mãos para rezar a Deus. Mas achei que era cinismo, se não acreditava Nele. Tento não fazer mal a ninguém. Por isso vivo meio recluso. Não aguento a hipocrisia nem a competição em que o mundo se transformou", contou em uma entrevista concedida no final do ano passado.

Exibicionista. Sobre sua estreia no teatro, contava que descobrira que seria ator quando subiu ao palco pela primeira vez. "Recebi meu primeiro aplauso e, pronto, senti que era o que queria. Assumi-me como exibicionista, não um exibicionista sexual, mas um Narciso, que queria aparecer."

Apesar da importância do primeiro papel, na Antígona, ele lembrava com carinho de outro trabalhos definidores, como Gata em Teto de Zinco Quente, de Tennessee Williams ("Um dos mais difíceis"), no teatro, e São Paulo S/A, no cinema. Do trabalho em televisão, gostava de lembrar de Os Maias, "por causa de Eça de Queiroz".

Chagas tinha uma relação conflituosa com a TV. "Dá muito trabalho. Sou um ator teatral e acho cansativo. Só ator de país pobre como o Brasil se sujeita a esse gênero. Até porque novela é muito repetitiva. São sempre as mesmas histórias... Não acho mais interessante. Achei interessante quando precisava financeiramente. Hoje em dia, não topo mais, a não ser quando é participação. Aí eu morro logo e pronto", disse em 2009, quando participou da novela Os Mutantes, da rede Record. "E também tem outra coisa. Sempre me dão papéis que chamo de 3M - milionário, mulherengo e mau caráter! Em geral são esses personagens que faço. Acho que estou no computador e quando precisam de um milionário, mulherengo e mau caráter leem lá 'Walmor Chagas'", brincou. A história da arte da atuação no Brasil provavelmente discordaria de julgamento tão severo.

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