CORREÇÃO-Incertezas pedem 'cautela' à política monetária, diz BC

Ao mesmo tempo em que piorou seus cenários de inflação tanto em 2013 quanto 2014, o Banco Central pregou que é preciso ter "cautela" na condução de política monetária o que, na avaliação de parte dos especialistas, indica que a Selic não deve ser elevada já em abril.

(CORRIGE NO 1O, Reuters

14 de março de 2013 | 14h24

Na ata do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada nesta quinta-feira, o BC chamou a atenção para a "maior dispersão" dos aumentos de preços recentemente, entre outros fatores, e que acaba contribuindo para que a inflação mostre resistência.

"Embora essa dinâmica desfavorável possa não representar um fenômeno temporário, mas uma eventual acomodação da inflação em patamar mais elevado, o Comitê pondera que incertezas remanescentes --de origem externa e interna-- cercam o cenário prospectivo e recomendam que a política monetária deva ser administrada com cautela", trouxe o documento.

Na semana passada, o Copom decidiu manter a Selic na mínima histórica de 7,25 por cento ao ano pela terceira vez seguida, mas deixou a porta aberta para elevá-la, ao retirar a expressão "por um período de tempo suficientemente prolongado" ao se referir às condições monetárias.

O BC continuou piorando suas projeções de inflação tanto para este ano quanto para 2014. Pelos cenários de referência e de mercado, as estimativas de inflação de 2013 subiram e se encontram acima do centro da meta, de 4,5 por cento pelo IPCA. Na ata de janeiro, a autoridade monetária já havia elevado suas contas para a inflação, que também estavam acima da meta

"Para 2014, a projeção de inflação aumentou em relação ao valor considerado na reunião do Copom de janeiro e se encontra acima do valor central da meta, em ambos os cenários", acrescentou o BC. No documento de janeiro, no entanto, o BC havia informado que as projeções estavam "ligeiramente acima" da meta.

Apesar de mostrarem algum arrefecimento nas últimas semanas, os preços continuam pressionados e existe a possibilidade a inflação medida pelo IPCA estourar o limite da meta --de 6,5 por cento-- em algum momento neste semestre. Em fevereiro, o índice acumulou alta de 6,31 por cento em 12 meses.

Pela ata, o BC voltou a afirmar que as decisões futuras de política monetária serão tomadas para "assegurar a convergência tempestiva da inflação para a trajetória de metas", mas continuou sem colocar um período para isso. A diretoria do BC já reconheceu que isso não deve ocorrer este ano.

AMENA

Parte dos analistas e economistas consultados pela Reuters apontou para a linguagem mais amena do BC nesta ata, uma vez que esperavam sinalizações mais contundentes sobre o início do ciclo de aperto monetário.

"O BC mostrou que uma alta (da Selic) agora pode não ser prudente diante dessas incertezas. Não tem sinal iminente para abril ou maio..., mas dá para falar que está mais preocupado com inflação", afirmou a economista-chefe da Tendências Consultoria, Alessandra Ribeiro.

Para o economista-chefe para América Latina do ING, Gustavo Rangel, a ata do Copom assumiu um tom "mais ou menos 'dovish'", levando em consideração o que o mercado de juros estava precificando.

"A ata mantém o tom neutro do comunicado (pós-reunião), sem um comprometimento com uma alta em abril... Não fecha a porta para uma alta em abril, mas torna a alta menos provável", acrescentou ele.

Como já havia informado no comunicado divulgado imediatamente após a reunião da semana passada, o Copom reafirmou agora que "irá acompanhar a evolução do cenário macroeconômico até sua próxima reunião, para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária".

O mercado de DI vinha precificando nos últimos dias maioria das apostas de alta da Selic em abril de 0,25 ponto percentual, quando o Copom se reúne novamente. Nesta manhã, com a divulgação da ata, as taxas indicavam que uma pequena maioria ainda via esse movimento, mas as apostas se reduziram.

Para a economista-chefe da Rosenberg & Associados, Thais Marzola Zara, o tom mais pessimista do BC sobre a inflação deve levar o Copom a elevar a Selic já no próximo mês.

"Esse excerto (que fala que a política monetária deve ser conduzida com cautela) até deixa aberta uma porta para a manutenção dos juros em abril, mas pode ser entendida muito mais como uma justificativa sobre a decisão de março", afirmou ela, para quem a taxa básica de juros vai subir a 7,50 por cento em abril, encerrando o ano a 8,5 por cento.

No geral, segundo a última pesquisa Focus do BC, publicada na segunda-feira, o mercado vê que a Selic fechará este ano a 8 por cento, com o início das altas em outubro. Para os Top 5 --instituições que mais acertam as estimativas--, no entanto, a alta começaria em maio.

Analistas do Credit Suisse também veem que a Selic subirá já em abril, a 7,50 por cento ao ano.

CÂMBIO AJUDA

Ao mesmo tempo em que citou as incertezas sobre a inflação, o BC indicou que a recente desvalorização do dólar contribui para a contenção dos preços. "Importa destacar moderação recentemente observada na dinâmica dos preços de certos ativos reais e financeiros, que, na hipótese de permanecerem nos atuais níveis, constituirão importante força desinflacionária".

No documento, o Copom citou haver informações recentes que apontam para a retomada do investimento e para trajetória de expansão da atividade mais alinhada com o crescimento potencial. No quarto trimestre, a Formação Bruta de Capital Fixo, indicativo de investimento, cresceu pela primeira vez após quatro períodos consecutivos de queda.

O BC também voltou a sublinhar os perigos da alta dos preços, mas nesta ata trocou o parágrafo de lugar e o aproximou da informação sobre a decisão de manter o juros em 7,25 por cento.

"Taxas de inflação elevadas subtraem o poder de compra de salários e de transferências, com repercussões negativas sobre a confiança e o consumo das famílias. Por conseguinte, taxas de inflação elevadas reduzem o potencial de crescimento da economia, bem como de geração de empregos e de renda", trouxe a ata.

(Reportagem adicional de Alonso Soto, em Brasília, e Silvio Cascione, em São Paulo)

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