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Corrupção em Bruxelas

País descobriu de repente que a holandesa Neeli Kroes, comissária por dez anos, dirigiu uma empresa offshore nas Bahamas nesse período

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2016 | 05h00

Pobre Europa! Seus problemas fazem fila. Perdeu o Reino Unido, está submersa sob 1 milhão de migrantes, não consegue reativar a economia; uma parte de seus membros (Hungria, República Checa, Polônia, Eslováquia) a insulta e zomba dela flertando com o populismo; a Grécia descarrila; a Espanha patina; e a França tem François Hollande na presidência!

Nesse conjunto de desgraças, faltava uma: a corrupção. A lacuna já foi preenchida. 

Bruxelas descobre de repente que um de seus comissários, que exerceu o cargo por dez anos, de 2004 a 2014, a holandesa Neeli Kroes, executou durante esse período, além de suas nobres funções em Bruxelas, outro trabalho menos dignificante: dirigia uma empresa offshore nas Bahamas. 

A notícia sacudiu Bruxelas. Um comissário europeu é muito respeitado. Ganha € 24 mil por mês e seu cargo corresponde ao de ministro. A sra. Kroes, hoje procurada, já esteve cinco vezes entre as mulheres mais poderosas do mundo da revista Forbes.

E qual era a função dela em Bruxelas? Era comissária da concorrência, o que agitou ainda mais o imenso formigueiro de 10 mil ou 15 mil funcionários da Comissão Europeia. É quase tão engraçado quanto o caso do ministro brasileiro da Transparência, demitido por opacidade monetária. 

O escândalo é ainda mais embaraçador por ter sido precedido, há algumas semanas, por outro alerta. Descobriu-se, com estupefação, que o português Manuel Barroso, que presidiu a Comissão por seis anos, teve a estranha ideia de se empregar, terminado seu mandato, no banco americano Goldman Sachs – acusado de ajudar a Grécia a maquilar suas contas e detonador da crise do subprimes de 2008. 

Indignados com a avidez e imoralidade desse Barroso, que foi a própria imagem da UE, funcionários da Comissão lançaram o abaixo-assinado “Não em meu nome”, que já reuniu 240 mil assinaturas. O objetivo é sacudir a letargia preguiçosa do sucessor de Barroso na Comissão, o luxemburguês Jean-Claude Juncker, homem afável, mas cuja virtude dominante não é a coragem. 

O caso Neeli Kroes tem pelo menos um ponto positivo: levanta o véu que protege o paraíso fiscal das Bahamas, do qual são enfim abertos os dossiês no que se chama de Bahamas Leak, documentos em poder do jornal alemão Suddeutsche Zeitung que relacionam 1,3 milhão de beneficiários. Trata-se da continuação dos Panama’s Papers. 

Confirma-se assim que as Bahamas, com suas 700 ilhas, perto de Miami, é um dos mais sedutores paraísos fiscais do planeta. É um paraíso menos hermético que o do Panamá, mas mais eficiente graças ao imposto zero e empresas de fachada criadas para facilitar a vida de estrangeiros verdadeiramente ricos (sul-americanos e europeus). A capital, Nassau, abriga 230 bancos e 40 mil empresas offshore ativas. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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