Crise ajusta conta corrente e enfraquece investimento

O Banco Central reduziu suas projeções para o déficit em transações correntes e para o investimento estrangeiro direto no país em 2009 por conta da crise financeira global. O ajuste se deu depois que o déficit de dezembro confirmou uma tendência de acomodação de contas como a de remessas de lucros e dividendos e de gastos dos brasileiros com viagens internacionais em meio ao avanço do dólar. O BC agora prevê que as transações correntes do Brasil com o exterior fecharão o próximo ano com déficit de 25 bilhões de dólares, após déficit estimado de 29,6 bilhões de dólares este ano --o primeiro saldo negativo desde 2002. A projeção anterior, divulgada no final de setembro, apontava déficit de 33,1 bilhões de dólares para este ano. A melhora do prognóstico do BC reflete, principalmente, a expectativa de uma continuada retração dos gastos de brasileiros com a compra de bens e serviços no exterior e também das remessas, diante do esperado desaquecimento da economia. A queda do déficit se dá a despeito de uma esperada redução do superávit comercial brasileiro pelo BC --de 23,5 bilhões de dólares em 2008 para 14 bilhões de dólares em 2009. A autoridade monetária estima que as exportações do país cairão 4 por cento no ano que vem, um efeito da queda dos preços e do volume exportado num cenário de retração da demanda global. As importações, por outro lado, devem ter alta de 1 por cento, após terem disparado quase 50 por cento este ano --reagindo à desaceleração da atividade doméstica e também ao encarecimento do dólar. INVESTIMENTO Depois de fecharem 2008 em volume recorde --o prognóstico é de 40 bilhões de dólares--, os investimentos estrangeiros diretos no país devem cair para 30 bilhões de dólares no ano que vem, prevê o BC. "Nossas sondagens ainda indicam uma manutenção dos fluxos de investimento", afirmou o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes. "Mas, dada a instabilidade, é difícil imaginar que tudo vai 'performar'." Ele acrescentou que setores como o automotivo, que já sentem globalmente o efeito da crise, "certamente" irão aportar menos investimentos. Para Altamir, apesar da retração importante, o volume de investimentos ainda é favorável no atual cenário global. Os investimentos estrangeiros em ações e títulos de renda fixa, por outro lado, devem ser negativos em 3 bilhões de dólares no próximo ano, segundo o BC, após entrada de 5,5 bilhões de dólares em 2008. A projeção anterior era de que essas aplicações somassem 15 bilhões de dólares este ano. A nova estimativa, segundo Altamir, leva em conta o comportamento recente desses investimentos. Em novembro, 1,762 bilhão de dólares em investimentos em carteira foram tirados do país por estrangeiros. Em dezembro, até o dia 19, esse fluxo negativo somou 480 milhões de dólares. NOVEMBRO No mês passado, o Brasil registrou déficit em transações correntes de 1,03 bilhão de dólares. O número ficou abaixo do déficit de 1,318 bilhão de dólares do mesmo período do ano passado, mas acima das projeções de déficit de 500 milhões de dólares feitas pelo próprio BC. Segundo Altamir, os dados foram afetados por uma operação de retorno de investimento, não prevista, de uma empresa da área de seguros nos últimos dias do mês. Em 12 meses até novembro, o déficit em transações correntes correspondeu a 1,67 por cento do Produto Interno Bruto (PIB), ante 1,71 por cento do PIB em 12 meses até outubro. Os investimentos estrangeiros diretos no país somaram 2,179 bilhões de dólares no mês passado. Em novembro de 2007, esses investimentos foram de 2,530 bilhões de dólares.

ISABEL VERSIANI, REUTERS

19 Dezembro 2008 | 15h02

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