Crise não vai deter 'revolução' na Bolívia, diz novo ministro

Em entrevista à BBC, ministro de Hidrocarbonetos insinua que Morales enfrenta racismo.

Marcia Carmo, BBC

16 de setembro de 2008 | 07h45

O novo ministro de Hidrocarbonetos da Bolívia, Saul Ávalos, disse que à BBC Brasil que "não há volta no caminho revolucionário" introduzido pelo presidente Evo Morales no país. Para Ávalos, que assumiu o cargo na semana passada, a crise entre o governo e a oposição não vai deter a nacionalização no setor energético. "Nada vai deter este processo de mudanças", disse ele. "A oposição deve saber que não vai nos intimidar. Vamos continuar esse processo de mudanças", disse o novo ministro por telefone, de La Paz. Segundo ele, a Bolívia vive uma "revolução", dentro da democracia e não há volta neste caminho "revolucionário". Ávalos, que chegou ao cargo graças à reforma ministerial realizada por Morales na semana passada, criticou a postura com tons racistas da oposição."Não tenho intenção de ser mártir, nada disso, sempre fui de esquerda e há três anos apoio o governo do companheiro Evo Morales. Mas acho que a oposição pensa assim: como pode ser esse 'branquelo', com certa estabilidade econômica, apoiando um índio". Nascido e criado em Santa Cruz de la Sierra, capital do Departamento (Estado) de Santa Cruz, Ávalos assumiu o cargo um dia antes de ocorrer a explosão num gasoduto que abastece o mercado brasileiro. Para o governo, o incidente foi provocado pela oposição que, por sua vez, responsabiliza o governo pela explosão. O fornecimento de gás para o Brasil já foi normalizado. AtentadoNa segunda-feira, a casa do ministro foi alvo de um atentado. Segundo ele, jogaram uma dinamite na varanda da residência, em Santa Cruz de la Sierra, reduto da oposição. "Não foi a primeira vez. Agora, a dinamite quebrou vidros e poderia ter machucado alguém. No ano passado, quando eu era (deputado) constituinte do partido do governo, já tinham jogado uma bomba caseira na minha casa", contou Ávalos à BBC Brasil. O ministro e a família não estavam no lugar na hora do atentado, cujos estragos foram mostrados nas TVs bolivianas. Ávalos disse que ainda recebe ameaças no seu celular, no telefone de casa e por e-mail. O novo ministro ficou conhecido politicamente quando era constituinte, durante as discussões da nova carta magna - um dos principais pontos de diferença entre governo e oposição. "Acho que vamos nos enfrentar mais vezes (governo e oposição), mas com idéias. Nos últimos dias, a oposição usou a força, ocupando prédios públicos do governo central, bloqueando estradas, fechando válvulas (de gasodutos)", disse. "Aqui na Bolívia, a oposição pensa assim: os bloqueios feitos pelo MAS (Movimento ao Socialismo, partido oficial) devem ser liberados à força. Já os bloqueios de estradas feito por eles, são normais", afirmou à BBC Brasil.NacionalizaçãoDurante mais de dez dias, as estradas da Bolívia estiveram bloqueadas em 35 pontos. No último domingo, a oposição anunciou que liberava o trânsito, mas seguidores de Morales afirmam que só vão desbloquear as estradas quando a oposição desocupar os prédios públicos do governo central, nos Estados."Como pode ser a oposição ocupando prédios? Está errado", disse Ávalos à BBC Brasil. O novo ministro é defensor "ferrenho" do processo de nacionalização do setor de petróleo e gás lançado por Morales em 1º de maio de 2006."A nacionalização é um dos principais méritos desse governo. Sou defensor ferrenho desta medida", disse. "Graças à nacionalização, contamos com mais recursos para distribuir entre os bolivianos. Quando este setor (de petróleo e gás) estava com as empresas transnacionais, a oposição não reclamava. Mas agora fizeram esse boicote de fechar válvulas para afetar o abastecimento (interno e externo)". Para ele, a demanda da oposição contra cortes no repasse de verbas do setor petroleiro para as regiões, "não faz sentido". Segundo o ministro, os Departamentos recebem mais recursos depois da nacionalização. O repasse de verbas será um dos assuntos na mesa de negociações entre governo e oposição, em La Paz. A expectativa é de que o diálogo entre o governo e a oposição possa ter início assim que o presidente Evo Morales voltar da reunião da Unasul, em Santiago do Chile, o que pode acontecer já nesta terça-feira.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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