Crise política faz Brasil perder mais uma posição em ranking de competitividade

Na 57ª posição entre 61 países, País só está à frente de Croácia, Ucrânia, Mongólia e Venezuela; Argentina subiu 4 posições

Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

30 de maio de 2016 | 15h55

O Brasil perdeu mais uma posição no ranking global de competitividade do instituto da escola de negócios suíça IMD, com participação local da Fundação Dom Cabral, e agora está no 57º lugar, à frente de quatro países: Croácia, Ucrânia, Mongólia e Venezuela. De acordo com o instituto, o País perdeu nada menos do que 11 posições desde 2012, quando era o número 46 da lista.

Entre os fatores que pesaram contra a avaliação do País está a crise política enfrentada ao longo de todo o ano de 2015. A turbulência econômica, que fez o Produto Interno Bruto (PIB) cair quase 4% no ano passado, fez o Brasil perder importância dentro do comércio internacional. "O Brasil não perdeu só espaço relativo na pesquisa, mas também absoluto. Desde 2009, a pontuação total do País caiu 10%", diz Fernanda Bedê, pesquisadora da Dom Cabral.

Segundo José Caballero, executivo do IMD responsável pela pesquisa, o levantamento não inclui a recente mudança de governo, com a posse do presidente interino Michel Temer (PMDB), que substituiu a presidente afastada Dilma Rousseff (PT). A pesquisa foi finalizada em abril, de acordo com Caballero. “Esse fator (o novo governo) só vai aparecer no ano que vem”, explicou.

O executivo disse ainda que a percepção sobre o ambiente de negócio para um País pode mudar rapidamente. Ele cita o exemplo da Argentina, que subiu quatro posições no ranking e agora está em 55º lugar. Em 56º, e também à frente do Brasil, está a Grécia, cuja economia entrou em colapso em meados do ano passado, sendo que os bancos chegaram a ficar de portas fechadas por mais de um mês.

"Embora a mudança de governo na Argentina não tenha ainda surtido efeito nos indicadores econômicos, a opinião do empresariado sobre o clima para investimentos mudou. E isso influencia bastante a pesquisa", diz Ana Burcharth, professora da Fundação Dom Cabral e uma das responsáveis pela elaboração do ranking, que incluiu entrevistas com 300 executivos brasileiros, a maioria deles de médias e grandes empresas. "Por aqui, o levantamento foi feito no auge da crise institucional e da falta de credibilidade do governo."

América Latina. Os cinco primeiros lugares da lista ficaram reservados a Hong Kong, Suíça, Estados Unidos, Cingapura e Suécia – que são considerados os melhores lugares para se fazer negócio no mundo. Entre os participantes latino-americanos, a melhor posição é a do Chile, que ficou em 36º lugar. De maneira geral, segundo Caballero, a América Latina perdeu fôlego na lista, à exceção da Argentina.

A comparação do Brasil com os primeiros colocados da lista, na visão do executivo do IMD, não faz sentido. Na visão de Caballero, seria mais produto o País se espelhar em economias semelhantes (como as demais nações latino-americanas pesquisadas) para buscar ganhar posições dentro de uma perspectiva mais realista. Hoje, o Brasil é o "lanterna" da região no ranking entre todos os representantes do continente americano.

Apesar de o Brasil ter piorado no ranking geral e em vários indicadores, Caballero, do IMD, vê alguns avanços relativos do País. Um deles foi notado na questão da infraestrutura. "O Brasil cresceu cinco posições neste setor, de maneira geral. Em acesso à água, foram oito posições, enquanto em qualidade do transporte aéreo foram seis posições."

Além das questões conjunturais, como a crise econômica e a instabilidade política, o pesquisador também explicou que as questões estruturais (como qualidade da educação, arrecadação de impostos e burocracia) continuam a prejudicar a competitividade do País. "O Brasil viu uma queda do número de pesquisadores em universidades. É um fator preocupante, caso isso não seja corrigido no longo prazo." 

 

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