Crise provoca excesso de aço chinês

Capacidade ociosa da siderurgia chinesa equivale a seis vezes a produção brasileira; problema afeta outros setores

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE, PEQUIM, O Estadao de S.Paulo

27 de novembro de 2009 | 00h00

A indústria siderúrgica da China opera atualmente com capacidade ociosa de 150 milhões a 200 milhões de toneladas, o equivalente a seis vezes a produção total do Brasil. O colapso da demanda internacional e o aumento dos investimentos no país agravaram ainda mais o problema, que também afeta os setores de alumínio, cimento, químicos, refino e energia eólica, revela estudo divulgado ontem pela Câmara de Comércio da União Europeia na China, realizado em parceria com a consultoria Roland Berger.

O excesso de capacidade provocou a redução das margens de lucros das empresas, o encolhimento dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento e a maior dificuldade para pagar empréstimos bancários, disse o presidente da Câmara, Joerg Wuttke. Fora das fronteiras do país, o desequilíbrio alimenta os conflitos com parceiros comerciais e deverá ampliar as medidas antidumping contra a China em 2010, ressaltou.

A situação se agravou com o pacote de estímulo de US$ 585 bilhões anunciado pelo governo em novembro de 2008. No ano passado, a China tinha capacidade para fabricar 660 milhões de toneladas de aço, mas produziu 500 milhões, das quais consumiu 470 milhões.

O setor siderúrgico continuará a crescer em 2009, apesar da previsão de que a demanda global pelo produto cairá cerca de 15%. Só na primeira metade do ano, US$ 20,6 bilhões foram investidos na produção de aço. As autoridades de Pequim estimam que os projetos em andamento acrescentarão mais 58 milhões de toneladas de capacidade nas siderúrgicas.

A China é a maior fabricante de aço do mundo, com cerca de metade da produção. Também é líder na produção de alumínio, setor que deve fechar o ano com ociosidade de 33%, e cimento, onde a ocupação é de 78%. Como na siderurgia, as empresas desses segmentos também enfrentam encolhimento nas margens de lucro.

Ontem o governo chinês anunciou a suspensão de todos os projetos de novas unidades de cimento que estavam em construção ou seriam iniciadas até 30 de setembro. No ano passado, o país tinha capacidade para produzir 1,64 bilhão de toneladas de cimento, mas fabricou 1,38 bilhão. Ainda assim, os investimentos no setor aumentaram 66% de janeiro a julho, para US$ 13 bilhões, que se traduziram em 210 milhões de toneladas adicionais.

A União Europeia vai analisar a situação de seis setores que são alvo de medidas anunciadas pelo Conselho de Estado da China em outubro, para enfrentar o excesso de capacidade. Mas a entidade ressalta que o problema existe em outras áreas. A indústria de esmagamento de soja, por exemplo, opera com ociosidade de 52%.

Segundo Wuttke, o problema não é novo, mas era amenizado pela exportação do que não era absorvido internamente. O estudo indica que existem estímulos poderosos para a ampliação do parque produtivo do país, como grande liquidez, alto nível de poupança e baixas taxas de juros. Além disso, há distorções que impedem a ação das forças de mercado quando há queda da demanda. A mais evidente é a ausência de falências das empresas estatais.

A poupança chinesa atingiu em 2009 o recorde de 53,2% do PIB, um dos mais altos índices do mundo. A maior parte desses recursos se transforma em investimentos. Desde o início desta década, o principal fator que alimentou a poupança chinesa não foi a economia das famílias, mas a sobra de caixa das estatais, que não pagavam dividendos. A partir do ano passado elas são obrigadas a dar dividendos a seu principal acionista - o Estado -, mas os valores ainda são muito baixos.

Em 2002, as corporações respondiam por 12,5 pontos porcentuais da poupança, que estava em 35,1% do PIB, enquanto as famílias garantiam 16,3 pontos porcentuais e o governo, 6,3. Em 2006, a poupança foi de 50,7% do PIB, dos quais 28,3 pontos - mais da metade - vieram das corporações. As famílias forneceram 15,4 pontos porcentuais e o governo, 7.

NÚMEROS

200 milhões de toneladas

é a quanto pode chegar a capacidade ociosa da siderurgia chinesa, que em 2008 produziu 500 milhões de toneladas

US$ 20,6 bilhões

foi o total investido na produção de aço na primeira metade do ano

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