Cristina anuncia pacote para aquecer economia argentina

Entre as medidas estão estímulo à repatriação de capitais e ao emprego.

Marcia Carmo, BBC

25 Novembro 2008 | 21h24

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, anunciou, nesta terça-feira, um pacote com cinco medidas para aquecer a economia do país. As iniciativas incluem a criação do Ministério da Produção para, como afirmou a presidente, "buscar novos mercados" de exportação, e grandes descontos em impostos para os que repatriarem capital para o país ou que o declararem ao fisco.Neste caso, os valores dos impostos serão diferentes para os que declararem os recursos, sem devolvê-los ao país (8%), para os que aplicarem o capital no sistema financeiro (6%), para os que comprarem títulos da dívida do país (3%) e para os que investirem em infra-estrutura, no setor imobiliário e agropecuária (1%). Normalmente, como informou a TV América, essa carga tributária é de 100%. Ou seja, um dólar pago para cada dólar repatriado.Historicamente, investidores e as classes média e alta do país depositam dinheiro no exterior ou fora do sistema financeiro, temendo crises - processo que voltou a se intensificar este ano e que acelerou a histórica bancarrota política e econômica de 2001. Com esta medida, o governo espera aumentar a liquidez e o crédito, escassos no país.Apesar do anúncio, economistas como Eduardo Blasco e Daniel Artana, entendem que o problema continua sendo a falta de confiança no destino do país. "As medidas são ótimas, mas tudo depende do fator confiança", afirmaram. As outras medidas anunciadas pela presidente foram: perdão das dívidas empresariais com o Estado para os que oficializarem a contratação de dez trabalhadores e redução da carga tributária para as empresas que contratarem novos empregados - sendo 50% no primeiro ano e 75% no segundo ano.Política econômica"Enviarei amanhã (quarta-feira) ao Congresso um projeto de lei de conteúdo tributário para promoção do trabalho registrado, visando, principalmente as pequenas e médias empresas e ainda a repatriação de capital", afirmou.Cristina discursou no encerramento da XIV Conferência Anual da União Industrial Argentina (UIA), em um momento em que industriais e trabalhadores reclamam diferentes medidas do governo para evitar a continuidade da desaceleração da economia e a queda nas exportações, no consumo e na geração de empregos. A Argentina cresceu a taxas recordes (acima de 6%) entre 2003 e 2007, mas este ano poderia registrar expansão de 5%. Especula-se que o crescimento pode ser até nulo em 2009."Nosso objetivo é sustentar a produção, o emprego, o consumo e a exportação", destacou.Cristina reiterou que, apesar das críticas, não pretende mudar o rumo econômico escolhido por seu antecessor - seu marido e ex-presidente Nestor Kirchner - e mantido por ela. "Primeiro falavam (em 2003) que o crescimento econômico não seria mantido. Depois, que o melhor vinha do norte (Estados Unidos), o que a crise provou que não é verdade. E este ano disseram que tínhamos que desaquecer a economia para frear a inflação. Ainda bem que não seguimos receitas das consultorias privadas", disse.SurpresaOs anúncios da presidente surpreenderam os industriais, como reconheceu o presidente da UIA, Juan Lascurain, que esperavam medidas ligadas à maior desvalorização do peso frente ao dólar para "compensar" a desvalorização do real no Brasil - o que, segundo eles, aumenta a competitividade dos produtos brasileiros."Estamos surpresos, mas muito satisfeitos. Essa redução de impostos vai contribuir para compensar a questão cambial", afirmou. Minutos antes do discurso de Cristina, Lascurain agradeceu o governo por "proteger" a indústria local a partir de medidas no Mercosul e da postura na Rodada de Doha de liberalização de comércio.Brasil e Argentina planejam anunciar, em dezembro, aumento da Tarifa Externa Comum (TEC) do bloco para diferentes produtos, como vinhos e laticínios.Mas os dois países sustentam posturas radicalmente diferentes em relação às discussões sobre Doha. Na semana passada, o secretário de Assuntos Econômicos Internacionais do Ministério das Relações Exteriores, embaixador Alfredo Chiaradia, disse à BBC Brasil que os países ricos deveriam fazer concessões na área agrícola antes de pedir abertura no setor industrial dos países emergentes. Construção civilA presidente afirmou, em seu discurso, que os detalhes das medidas serão divulgados nesta quarta-feira por integrantes de sua equipe ministerial. Na noite desta terça-feira, Cristina fez outros anúncios para estimular a economia. Desta vez, disse que no dia 15 de dezembro formalizará um pacote de 71 bilhões de pesos para o setor da construção civil - uma das principais alavancas da primeira etapa da retomada do crescimento, a partir de 2003. Na semana passada, após a estatização da previdência privada, autoridades do governo informaram que os recursos poderiam ser investidos neste setor para estimular a economia do país.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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