Cristina reage com frieza e ironia a papa argentino

Presidente demora para emitir nota oficial e, em discurso, felicita anúncio do cardeal Bergoglio, antigo desafeto, sem citar seu nome

MARINA GUIMARÃES, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2013 | 04h18

BUENOS AIRES - No início da noite de ontem, horas depois que vários líderes mundiais se manifestaram publicamente sobre a eleição do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio como o novo papa Francisco, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, dedicou o final de um discurso ao conterrâneo. "Hoje é um dia histórico e não quero deixá-lo de mencionar: pela primeira vez em dois mil anos teremos um papa que pertence à América Latina e desejamos, de coração, a Francisco que ele possa ter o maior grau de confraternidade entre os povos e as religiões", disse a presidente.

Cristina desejou boa sorte ao papa, mas em nenhum momento, mencionou o nome de Bergoglio. O tom do discurso pareceu mais provocativo, ao estilo que marcou a áspera relação do governo Kirchner com Bergoglio.

Ela disse que a escolha do nome do novo papa "deve ter sido" em homenagem à São Francisco, "que fez a opção de vida em favor dos pobres". Neste contexto, desejou que o papa "leve essa mensagem às altas hierarquias para que o mundo possa encontrar igualdade entre todos os seres humanos, com fraternidade, justiça, amor, e paz, porque este governo tem lutado sempre pelos que menos têm. E, isso é o que nunca nos perdoaram."

Bergoglio sempre foi crítico do governo Kirchner. Cristina aproveitou para cutucar, indiretamente, a Grã-Bretanha, que promoveu recente referendo nas Ilhas Malvinas, considerado por seu governo como estratégia para desarmar os argumentos argentinos em defesa da abertura do diálogo sobre a soberania do arquipélago.

"Que o papa leve a mensagem de diálogo a grandes potências no mundo porque também queremos o diálogo que pregam em todas as partes para que os que têm armamento e poder financeiro olhem os povos emergentes e promovam um diálogo de civilizações, pelos canais diplomáticos e não pela força", disse a presidente argentina.

A mensagem foi também um estocada ao cardeal Bergoglio que, em suas últimas críticas ao governo, alertou para a falta de diálogo por parte do governo e para o risco de uma fratura na sociedade argentina. Minutos antes do discurso, o porta-voz da presidência, Alfredo Scoccimarro, confirmou que Cristina Kirchner vai à posse do papa Francisco.

Tensão. A relação do papa Francisco com o governo da Argentina tem sido áspera durante os últimos dez anos. Bergoglio, arcebispo emérito de Buenos Aires, chegou a ser apontado pelo ex-presidente Néstor Kirchner como "o verdadeiro representante da oposição".

Cristina tem reclamado da "falta de consideração" por parte da Igreja Católica pelo "esforço" que seu governo e o de seu marido fizeram para tirar a Argentina da crise de 2001, quando o país foi à bancarrota.

Quando Néstor morreu, em outubro de 2010, Bergoglio rezou uma missa em sua homenagem. "O povo tem de abandonar todo tipo de posição antagônica diante da morte de um homem ungido pelo povo para conduzi-lo. E todo o país deve rezar por ele", afirmou na ocasião.

Bergoglio e os Kirchners trocaram farpas em várias ocasiões, especialmente durante a crise entre a Casa Rosada e o setor agropecuário. O clima de discórdia era alimentado pela administração pública federal. No ano passado, alertou para o perigo de uma sociedade dividida e para o crescimento dos níveis de pobreza no país.

Quando Cristina sucedeu o marido, a relação foi suavizada por um tempo. Mas a tensão voltou a aumentar quando o então arcebispo se opôs publicamente às leis impulsionadas por seu governo que permitiram o casamento gay e a mudança de documentos pessoais dos travestis para o sexo escolhido, além de garantir cirurgias de mudança de sexo em hospitais públicos.

Ontem, um incidente na Câmara dos Deputados reforçou a distância entre o novo papa e o kirchnerismo. O anúncio do Vaticano se deu durante uma sessão em homenagem ao presidente venezuelano Hugo Chávez, morto no último dia 5. O presidente da Câmara, o governista Julián Dominguez, anunciou o nome de Francisco e seguiu com as honras ao líder bolivariano. Os deputados da oposição pediram uma pausa na sessão para que pudessem ouvir o pronunciamento do papa, mas a proposta foi recusada pelo bloco kirchnerista Frente para la Victoria.

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