HELVIO ROMERO/ESTADÃO
HELVIO ROMERO/ESTADÃO

Crítica: Vanguart encontra seu melhor lugar ao sol

Ao abandonar o pêndulo emocional que dirigia seus discos anteriores, deixando-os mais 'alegres ou mais tristes', banda amadurece e entrega sua produção mais autêntica

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

26 Abril 2017 | 05h00

Os grandes discos são percebidos logo, em dois ou três segundos de audição, e o Vanguart revela seu grande disco assim, logo na entrada de Beijo Estranho. Eles agora estão distantes da dicotomia alegria versos tristeza, que andou preocupando o próprio grupo em seus períodos de entressafra. Eles voltam com pressão, drive, peso – o que não significa distorção ou gritos – e trazem uma identidade mais apurada, com o excesso das células de Los Hermanos diluídas em um caldo mais substancioso. Não estão obrigatoriamente cabisbaixos como no ótimo Boa Parte de Mim Vai Embora, de 2011, nem dirigidamente festivos como no seguinte, Muito Mais Que o Amor, de 2013. Sua liberdade de espírito não precisa mais ter coesão faixa a faixa.

O movimento dos dias atuais é o contrário do que se percebia há 10 anos, quando eles surgiram com seu primeiro disco de estúdio, Vanguart. Ser indie era uma postura e uma linguagem, o avesso do acabamento pop das décadas anteriores bancado por homens de estúdio como Ricky Bonadio. As fotos deviam ser sombrias e desfocadas, as guitarras sujas e mal tocadas e as baterias, toscas. O Vanguart andava já duas casas à frente dessa lógica, com boas sacadas harmônicas e um pé no folk antes mesmo que esse gênero virasse o novo cool.

Eles poderiam ter ficado tranquilos no lugar que habitaram com Boa Parte de Mim Vai Embora. Sua melancolia nunca chegava à depressão e a coleção de canções que conseguiram ali trazia cores sortidas o suficiente para não torná-los repetitivos e indigestos. O que começava a incomodar era a voz chorosa de Hélio Flanders, uma característica que poderia ser usada mais como recurso do que muleta. Os rapazes se cansaram, assim, das dores do amor e se mudaram para uma casa mais ensolarada. Muito Mais Que o Amor chegou mais feliz e mais superficial, um efeito colateral que a alegria insiste em provocar na humanidade.

Beijo Estranho, o disco, não tem mais linhas que delimitam sentimentos, e isso não é definido em reuniões. Depois de uma entrada cheia de personalidade nos arranjos e no vocal, eles investem em Todas as Cores, mais feliz e pop, reflexo das diferenças de espírito de Flanders e do baixista Reginaldo Lincoln, que assina esta, e do despudor que o ex-indie assume em direção ao mundo habitado por multidões. Ser pop não é mais um ato de traição, desde que o músico não esteja traindo a si mesmo. E o Vanguart soa leve e de verdade, com sua linguagem desenhada em 2007 perceptível depois de dez anos de maturidade.

A presença dos arranjos de cordas de Wagner Tiso em Homem-Deus é um tiro certo, assim como canções que habitam os limbos do caminho entre a felicidade e a nostalgia, como a sensível Casa Vazia, de Flanders, e E O Meu Peito Mais Aberto Que O Mar da Bahia, de autoria dos dois. Reginaldo Lincoln surge algumas vezes como a porção mais otimista, tramando um equilíbrio saudável a uma banda que se despede do pêndulo emocional entre um disco e outro para explorar cada canção com mais profundidade. Afinal, há sentimentos que não podem ser definidos, ou alguém se arriscaria a classificar entre a alegria e a tristeza versos de uma canção como Beijo Estranho?: “Meu coração queimou devagar / O teu beijo estranho / Juntou-se ao meu sonho no chão / E no chão eu fiz casa até perceber / Uma voz que eu nunca quis escutar”.

Mais conteúdo sobre:
VanguartWagner TisoBahia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.