Críticas a acervo de cobras chocam pesquisadores

Após incêndio na coleção de animais, ex-presidente da Fundação Butantã questionou importância do trabalho; direção lamenta

Alexandre Gonçalves e Fabiane Leite, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2010 | 00h00

Pesquisadores, comunidades científicas e o próprio diretor do Instituto Butantã, Otávio Mercadante, classificaram ontem como "equivocadas", "lamentáveis" e "tristes" as declarações do ex-presidente da Fundação Butantã Isaías Raw.

Anteontem, após o incêndio que destruiu a coleção de cobras e aracnídeos da instituição, única no mundo, Raw questionou a importância do acervo e sua produção científica e a competência dos responsáveis por ele, além de ter defendido priorização da produção de vacinas.

O diretor do Instituto Butantã, Otávio Mercadante, disse que o órgão "entende como equivocada a avaliação de que a área de pesquisa tenha importância inferior à de produção". "O professor Isaías Raw é um cientista respeitado internacionalmente, mas sua ponderação sobre as coleções zoológicas está equivocada. Prova disso é que países desenvolvidos têm investido cada vez mais recursos na manutenção e ampliação dessas coleções", afirmou.

Já a Sociedade Brasileira de Zoologia disse que "é lamentável encontrar um tamanho desprezo sobre o conhecimento biológico" do País.

"É como se, durante o velório de um ente querido, a família fosse obrigada a aturar um lunático invadindo o salão, estourando uma garrafa de champanhe e celebrando a ausência definitiva do morto", compara um texto divulgado por um grupo de pós-graduandos do departamento de Zoologia do Instituto de Biociências da USP.

"É triste ouvir de um ícone da ciência brasileira afirmação tão leviana, em um momento tão doloroso para a pesquisa brasileira, que ele mesmo ajudou a construir", disse o diretor do Laboratório de Ecologia e Evolução do Butantã, Otávio Marques.

O pesquisador, de 82 anos, em resposta a reclamações de que sua gestão não valorizou os acervos, disse anteontem que cabe aos pesquisadores do instituto buscar apoio em agências de fomento à ciência. "Se não conseguir, é porque não tem competência". E questionou as coleções. "Não é para juntar cobra para brincar no laboratório."

Por trás da polêmica do incêndio que destruiu as coleções de animais está o debate sobre qual é a missão do instituto, ligado ao governo estadual: fazer pesquisa básica e preservar acervos da biodiversidade ou atuar como um instituto de tecnologia voltado à produção de imunobiológicos.

Em nova manifestação ontem, por carta, Raw afirmou que já havia recomendado que a coleção não fosse conservada em álcool, pelo risco de incêndio. Também afirmou que o sequenciamento do DNA dos animais da coleção é mais importante que guardá-los.

"O real patrimônio deixado por Vital Brazil (fundador do Butantã) não foi a coleção de cobras, mas descobrir como produzir soros (contra o veneno das cobras)!", escreveu ainda.

Raw deixou a Fundação Butantã após a descoberta de um desvio de R$ 35 milhões. Segundo o Ministério Público, ele não foi beneficiado, mas praticou gestão temerária, o que ele nega.

O pesquisador enfatizou que o instituto teve papel crucial no cumprimento da meta definida pelo ex-ministro da Saúde Adib Jatene (que administrou entre 1995 e 1996) de procurar a autossuficiência na produção de vacinas e soros, na busca de "inovação e desenvolvimento tecnológico", defendida pelo atual ministro, José Temporão, que está fora do País.

Questionado, Jatene defendeu que haja recursos para que o Butantã faça vacinas e pesquisa básica. "As duas coisas são importantes. Os recursos para a pesquisa continuam e são crescentes. Raw é determinado, teve uma ação vigorosa para a produção de vacinas e conseguiu."

Para o diretor do Museu de Zoologia da USP, Hussam Zaher, a afirmação de que seria possível substituir o álcool é equivocada. Raw propõe o uso de glicerina. "A glicerina amolece os tecidos e o animal perde a cor." Também defendeu a coleção. "Não adianta o DNA de um animal sobre o qual não sabemos nada."

CARTAS

"O incêndio é o momento de rever a atividade científica dos pesquisadores do acervo. Não podemos simplesmente juntar todas cobras que são trazidas...

...Ser neto do grande Vital Brazil (fundador do instituto) não dá autoridade para definir o papel do Butantã. Somos a âncora das metas de autossuficiência para vacinas e soros (...). Sem a produção do Butantã, estaríamos sempre dependentes de empresas internacionais, algumas das quais, por falta de retorno financeiro, abandonaram a produção de soros. (...) As novas prioridades são as vacinas de dengue (...), o rotavírus (...), o surfactante que evitará (...) mortes de bebês." ISAÍAS RAW

"É lamentável encontrar um tamanho desprezo sobre o conhecimento biológico de nosso País, justamente quando o mundo inteiro, no Ano Internacional da Biodiversidade, organiza esforços para conhecer, preservar e divulgar o que resta dos ambientes naturais de nosso planeta.(...)

A Sociedade Brasileira de Zoologia entende que fomento para pesquisa é solicitado pelo pesquisador, porém a manutenção ou ampliação da infraestrutura é de responsabilidade institucional e de seu administrador." SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOLOGIA

Leia. As íntegras das cartas de Isaías Raw e de seus críticos

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