Críticos adotam ''viés fascista'', diz Haddad

Em audiência no Senado, ministro da Educação reclama que críticas a livro foram feitas sem que ele tenha sido lido

Rafael Moraes Moura / BRASÍLIA,

01 Junho 2011 | 12h25

Os críticos do livro Por uma Vida Melhor - que defende que a fala popular, dependendo do contexto, é mais adequada na tentativa de estabelecer comunicação - adotam "postura fascista", disse na manhã de ontem o ministro da Educação, Fernando Haddad.

"Há uma diferença entre o Hitler e o Stalin que precisa ser devidamente registrada. Ambos fuzilavam seus inimigos, mas o Stalin lia os livros antes de fuzilá-los. Ele lia os livros, essa é a grande diferença. Vivemos, portanto, uma pequena involução. Estamos saindo de uma situação stalinista e agora adotando uma postura mais de viés fascista, que é criticar um livro sem lê-lo", afirmou Haddad, em audiência da Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado.

O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) rebateu o ministro, o que provocou um bate-boca entre os dois. "Quero fazer uma indagação: por que razão não forneceram o livro até mesmo a gabinete de senadores? O MEC negou, a Comissão de Educação não recebeu esse livro e a própria editora se negou fornecê-lo. Vossa Excelência queria que lêssemos todo o livro sem ter acesso a ele?", questionou o tucano.

"Bastava o capítulo", disse Haddad. "Esse capítulo eu li", rebateu Dias. "O capítulo não, o senhor leu uma frase. O senhor não leu o capítulo", prosseguiu Haddad, que afirmou que não se pode avaliar um livro com base numa "frase pinçada".

Haddad também defendeu que o programa do livro didático seja institucionalizado sob a forma de projeto de lei. "Hoje só há um decreto institucionalizando o programa. Talvez estejamos no momento de compreender o que a sociedade de fato quer, e o lugar adequado para isso é o Congresso. Se nós tomarmos qualquer providência nessa direção, daremos nossa contribuição."

PARA ENTENDER

Livro distingue fala de escrita

Em meados de maio, a notícia de que um livro que "defenderia erros de português" foi distribuído pelo Ministério da Educação a 484.195 jovens e adultos que estudam em 4.236 escolas públicas do País gerou discussão.

O capítulo considerado polêmico por leigos, mas aceito por linguistas - ele foi aprovado por professores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte -, afirma que "a língua escrita não é o simples registro da fala" e explicita as diferenças no aprendizado de ambas, já que se aprende a falar de forma espontânea, mas escrever exige ensino formal.

O texto também chama atenção para diferenças regionais e também de classe, fazendo distinção entre "norma culta" e "norma popular". A autora defende "que o falante de português domine as duas variedades e escolha a que julgar adequada à sua situação de fala". Ela também cita artistas que registraram a norma popular em suas obras, como o escritor Juó Bananére e o compositor Adoniran Barbosa.

Entretanto, a Defensoria Pública da União no Distrito Federal entrou com uma ação para que a obra seja recolhida.

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