Luiz Horta/AE
Luiz Horta/AE

Crônicas mundanas de Glupt!

O exaustivo charme da degustação en primeur

Luiz Horta,

11 Abril 2012 | 22h22

Ah, Bordeaux, châteaux, vinhos caríssimos, alamedas ajardinadas e rótulos de nomes enormes que enchem a boca e o desejo de qualquer um... Nomes nobres, sobrenomes com hífen, barões e baronesas, que glamour! Que vida maravilhosa a de colunista de vinhos, um universo fofo de tapetes macios, sapatos engraxados e cristal Baccarat. Desculpem o choque de realidade, mas a vida do colunista não é vivida em um móbile cor-de-rosa, sempre com uma taça na mão, de smoking, parecendo um George Clooney do Cerrado. A organização da visita foi impecável, mas a prova dos vinhos en primeur é dura.

Noite fechada, na gelada primavera bordelesa de chuva sem fim, 4°C, acordava com o telefonema da portaria do hotel. Vontade de cobrir a cabeça com o edredom e dizer: não vou mais. Mas ia. Café apressado e a Mercedes já estava na porta, o infatigável chofer uniformizado abrindo a porta para um eu zumbi entrar. Uma seleção de árias de Haendel (como descobriu que eu gostava? “Dei um google no seu nome”), atenuava o sono e o desânimo. E era uma hora de viagem até o primeiro château, o mítico Yquem. Posso ouvir a voz de oh!, que inveja, esse resmungão reclama por acordar cedo para tomar Yquem. Verdade, mas é chegar, bonjour, ganhar uma taça do vinho ainda não pronto e partir. Depois mais estrada, mais bonjours e uma lista de grandes nomes, tudo no mesmo esquema, carrinho de golfe até o pavilhão do Mouton, do Palmer e etc.

A boca vai ficando roxa, os taninos duríssimos de vinhos que só serão engarrafados em no mínimo 2 anos e serão macios e bebíveis em 15 ou 20 anos, atacando a mucosa. Algumas das propriedades, bem antigas, nem têm aquecimento, fazem dos pés picolés, e as degustações, sempre de pé, fazem das pernas ossos moles e doloridos.

Trinta taças cuspidas depois aparece a primeira afta. O cálculo de avaliação é complicado. Quando esses líquidos recém-nascidos e agressivos estarão no seu auge? Certamente quando eu estiver octogenário, por volta de 2037. Fim da reclamação. A visão da inconfundível construção em estilo misturado de palácio indiano com casarão, as torres apagodadas do Cos d’Estournel ostentando a bandeira do Brasil, faz sorrir a vampiresca boca violácea do pobre aprendiz de degustador en primeur. Na porta, o elegante Jean-Guillaume Prats, formado em Oxford, colega do príncipe Andrew e repertório interminável de boas anedotas do mundo do vinho, recebe com fidalguia. É hora de beber mesmo, sem cuspir, almoçar com alegria, com vinhos que entendo, prontos, fabulosos. Monsieur Prats teve a gentileza de servir um Cos 85 e um 05, além do branco e do Tokaj produzido pela companhia na Hungria. A partir daqui permito que sintam invejinha, porque foi quando tudo voltou a fazer sentido.

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