Cuba ainda espera abertura de Raúl

Dois anos após assumir acenando com mudanças no regime, líder cubano rejeita diálogo e aperta cerco a dissidentes

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

23 de novembro de 2009 | 00h00

Eles estavam à paisana. Mas alertaram claramente que se tratava de um grupo de policiais e defensores da Revolução. Há uma semana, a reportagem do Estado tentava chegar à casa de Vladimiro Roca, um dos dissidentes cubanos que ainda vivem em Havana. Mas acabou barrada a poucos metros da residência, em plena luz do dia, por policiais à paisana que se identificaram como "defensores da Revolução". A cena se repetiu após nova tentativa, pelo outro lado da rua.

Apesar das expectativas criadas após a ascensão ao poder do presidente Raúl Castro, em 2007, pouca coisa mudou em Cuba. Na semana passada, a organização não-governamental Human Rights Watch publicou um relatório denunciando que o regime cubano criou leis que permitem ao Estado prender suspeitos antes mesmo que cometam crimes - a acusação é que eles estariam "planejando atividades ilícitas". Em dois anos, 40 pessoas foram detidas nessas condições, segundo a ONG. Outras 53 ainda estão presas desde 2003 por organizar um protesto contra Fidel Castro.

No jornal oficial do governo, o Granma, as autoridades rejeitaram o conteúdo do relatório. No Ministério das Relações Exteriores, diplomatas explicaram que "existem diferentes visões do que é uma democracia". Eles alegam que não se trata de detenção de opositores, mas de pessoas que seriam "equivalentes a terroristas". Para completar, defendem que, se um líder é admirado por seu trabalho, não há motivo para que deixe o cargo de presidente.

Em conversas em locais discretos, muitos dissidentes admitem que temem por suas vidas. A maioria tem suas atividades limitadas e não quer ter seu nome citado. São jornalistas, economistas e líderes comunitários que dizem tentar, de dentro de Cuba, promover reformas e promover um debate sobre a situação na ilha. Todos eles asseguram que o apelo por mudanças não vem de Washington ou de Miami, mas dos próprios cubanos.

Vários dissidentes alertam que as reformas na economia que haviam sido prometidas por Raúl jamais ocorreram. "Cuba não tem um projeto para os próximos anos", afirma o dissidente Dagoberto Valdés. "A ideia de que poderia seguir o modelo chinês de reformas, com uma abertura econômica e mantendo o sistema comunista, não está sendo aplicada. O governo sabe que, no momento em que iniciar isso, perderá o controle sobre a sociedade", acrescenta Valdés.

Entre as medidas autorizadas por Raúl está o sinal verde para que empresas paguem por horas extras a seus funcionários. Na prática, isso poderia ser o início de uma diferença salarial no país. Mas praticamente nenhuma empresa estabeleceu a nova remuneração, por causa da crise econômica - considerada a pior desde o fim da União Soviética, nos anos 90.

Outro "ajuste" é a autorização para o uso de celulares. Parte da população não quer usar o serviço, por temor de que serão vigiados, ou não tem dinheiro para pagar as tarifas exorbitantes. O acesso à internet também continua limitado, mesmo com a expansão do movimento de blogueiros. Segundo a União Internacional de Telecomunicações (UIT), a assinatura mensal de um serviço de banda larga pode custar US$ 1,6 mil em Cuba, um dos preços mais altos do mundo.

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