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Cubiculum vitae

Como galés de colarinho branco, milhões trabalham ‘cubiculados’ em minúsculas baias. Felizes não estão

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

26 Abril 2014 | 16h54

Aqui são baias ou aquários. Baias se de meia altura; aquários se protegidos por vidros. Em seu país de origem têm um só nome: cubicle. Desde sempre associamos cubículo a qualquer compartimento de proporções reduzidas, inclusive a minúsculos quartos de dormir (do latim cubiculum), mas não àqueles ambientes de trabalho separados por divisórias, tão em voga desde o final dos anos 1960. Como então traduzir o título de Cubed, o badalado livro de Nikil Saval sobre o trabalho em escritório? Temos o adjetivo cubicular, mas "encubado", em português, nada tem a ver com mourejar entre baias e aquários.

Milhões de pessoas o enfrentam no mundo inteiro, cubiculando-se (invente-se o verbo!) durante oito horas por dia. O que significa 40 horas de confinamento por semana, 160 horas por mês e 1.920 horas por ano. Felizes não estão. Pesquisa da fábrica de móveis para escritório Steelcase descobriu que 93% das pessoas que trabalham nessas condições prefeririam dar duro em outro espaço. O cubículo transformou-se numa espécie de calvário da cultura contemporânea, a quintessência da clausura corporativa, a galé clean do capitalismo, a linha de montagem dos colarinhos-brancos.

Seus compulsórios usuários não são os únicos a considerar a faina cubicular uma modalidade moderna de tortura. De resto, etimologicamente justificável: trabalho vem de tripalium, um instrumento de tortura dos antigos romanos. Baia, por sua vez, lembra gado. Um autêntico cul-de-sac semântico.

Saval abre seu livro com um caso exemplar de furibunda reação à vida em baias. Lembram o que o surtado personagem de Michael Douglas fazia com um bastão de beisebol no filme Um Dia de Fúria? Um sujeito repetiu a façanha contra um cubículo, alguém gravou e o vídeo abafou na internet. Catarse equivalente provocou a cena da comédia Como Enlouquecer seu Chefe em que três rapazes exorcizam suas tediosas tarefas numa empresa de tecnologia da informação destruindo uma máquina de fax a cacetadas.

A reputação do cubículo também é péssima entre os designers, sem exclusão do visionário que, cheio de boas intenções, o inventou. Os empresários que o adotaram enaltecem sua "funcionalidade", e a indústria que o fabrica não está nem aí: fatura US$ 3 bilhões por ano, sem queimar as pestanas com ideias inovadoras. Por sua tenaz resistência ao tempo e às críticas, o cubículo já foi definido como "o Fidel Castro do mobiliário de escritório" por uma jornalista do The Economist.

Cubed, que tem por subtítulo A História Secreta do Local de Trabalho, conta na verdade uma dupla história: a dos espaços onde os white collars (profissionais de colarinho branco) ganham a vida e a da qualidade do trabalho em si, estabelecendo relações entre a configuração daqueles espaços, a felicidade humana e a produtividade. Nikil Saval, que além de coeditar a prestigiada revista de cultura n+1 é blogueiro do Huffington Post e colaborador da London Review of Books, não é um Marx pop. Tem mais parentesco com o sociólogo C. Wright Mills, o pioneiro estudioso da nova classe média americana, a quem Cubed, aliás, é dedicado.

No seminal White Collar, publicado em 1951, Mills fez um poderoso e profético diagnóstico da racionalização e da degradação do office work nas primeiras décadas do século passado. É um marco na análise do tédio, do isolamento e da anomia na sociedade contemporânea, de grande influência sobre Vance Packard (A Multidão Solitária), e, de certo modo, sobre William H. Whyte, cujo Organization Man, ode à superioridade criativa dos indivíduos sem os grilhões da racionalidade corporativa, virou best seller em 1956.

Foi quando investigava o surgimento dos primeiros escritórios em meados do século 19 para um ensaio, Birth of the Office, publicado na n+1, sete anos atrás, que Saval interessou-se por aquele onipresente nicho iluminado por luz fluorescente em que homens engravatados passam horas com os olhos grudados num computador e já no tempo das máquinas de escrever pareciam contaminados pela "tristeza dos lápis", de que fala o poeta Theodore Roethke, citado em epígrafe no livro, ao lado do escritor suíço Robert Walzer e seu imaginário pedido de emprego, "num cubículo bem quentinho".

Então instalado no segundo cubículo de sua vida ("ainda menor que o primeiro"), Saval começou se perguntando onde, quando e em que circunstâncias aquelas divisórias teriam surgido, e se de fato são o que de pior existe no cotidiano de um profissional liberal. Descobriu que o cubículo, apesar dos pesares, não é causa, mas sintoma, o símbolo mais evidente de um ambiente de trabalho opressivo, vigiado, hierarquizante.

O "colarinho-branco" entrou silenciosamente no mundo dos negócios, ao contrário dos "colarinhos azuis" (blue collars), os trabalhadores do mundo fabril, tão ruidosos quanto suas usinas. Trabalho "limpo" e assalariado, privilégio da classe média, suas raízes remontam às humildes contadorias de 150 anos atrás, que cuidavam do papelório de firmas de importação e transporte de mercadorias e habitualmente acomodavam num único cômodo todos os seus funcionários: em geral, dois escriturários, que copiavam e arquivavam documentos, e um guarda-livros, instalados a poucos metros de distância da chefia.

Tal proximidade lhes deu a ilusão de que, esfalfando-se a valer, podiam subir na empresa, chegar ao topo ou mesmo dela tornarem-se proprietários, decerto com maior rapidez se casassem com a filha do patrão. Porque se viam como patrões em potencial, ligavam-se mais aos seus superiores do que aos seus pares, cuja concorrência temiam. Eram desse tipo o ambiente de Bartleby, o Escriturário, de Herman Melville, o escritório do dickensiano Scrooge e a repartição a que Franz Kafka ia todas as manhãs.

Com o crescimento das empresas e o consequente aumento de pessoal, o trabalho em escritório mudou de aparência (as salas se ampliaram) e intensidade, tornando-se, paradoxalmente, mais promíscuo, e acima de tudo mais agitado, burocrático, concorrido - além de quase tão repetitivo quanto o da linha de montagem onde os blue collars suavam o macacão. O cinema explorou bem esse aspecto em dramas (A Turba, de King Vidor) e comédias (Em Busca de um Homem, Se Meu Apartamento Falasse, Como Eliminar seu Chefe).

No início do século passado, a Larkin Company, fabricante de sabonetes, resolveu inovar. Adotou o sistema de entregas por correio e contratou o grande arquiteto Frank Lloyd Wright para modernizar sua sede, aumentar-lhe o espaço administrativo, iluminá-lo com luz natural, arejá-lo para reduzir o estresse de seus funcionários. Não deu certo. Com quatro executivos e respectivas secretárias alinhados em pontos estratégicos, o projeto atendeu mais aos objetivos de vigilância e controle da empresa que ao bem-estar dos empregados.

Na década de 1950, os alemães inventaram o Birolandschaft e seus espaços integrados, só funcional no papel. Muito ruído (visual e sonoro), muita dispersão, muita interferência - como se concentrar num ambiente daqueles? Sua utópica mesa comunal, juntando chefões e subalternos, não eliminou as hierarquias inerentes ao modelo administrativo das grandes, médias e pequenas empresas. Na década seguinte, visando a aparar todas as arestas, estimular a criatividade individual e aumentar a produtividade, Robert Propst inventou o ancestral do cubículo.

Contratado para chefiar a pesquisa do fabricante de móveis modernos Herman Miller, Propst, que não era designer, estudou bem o modus operandi e a psicologia dos empregados de escritório e bolou o Action Office, coleção de peças para ambientes reservados para projetos criativos. Coisa rara: a estética do desenho industrial unindo os conceitos de funcionalidade e dinamismo a ideias progressistas sobre as necessidades humanas.

Eram compartimentos com ângulos de 120° e mesas flexíveis que permitiam ao empregado trabalhar sentado ou de pé, combater o sedentarismo, agilizar melhor o serviço, estimular a circulação sanguínea e combater a exaustão. A configuração octogonal lhe pareceu a mais desobstruída, relaxante e holística. Alguém da diretoria ponderou que com ângulos de 90° o Action Office ficaria mais eficiente e abrigaria mais gente. "Loucura monolítica", protestou Propst. Mas não conseguiu impedir que o Action Office II, lançado em 1968, prevalecesse sobre seu projeto e se impusesse como protótipo do constringente cubículo tal como o conhecemos e Scott Adams imortalizou nas tiras de Dilbert.

Ao longo dos últimos 46 anos, diversos designers tentaram amenizar seus efeitos psicológicos, criando modelos pretensamente alternativos, no máximo, eufemísticos, com falsas janelas emoldurando paisagens à escolha do freguês, vasos de flores, luminárias especiais e arranjos feng shui. Uma expert em "estilo de vida" chamada Kelley Moore ganhou um bom dinheiro comercializando cubículos estilizados: o Zen Cube (com muito bambu), o Pub Cube (com bancos de bar para os visitantes) e o Hip-Hop Cube (coberto de grafites). Como daqui a alguns anos todo mundo vai trabalhar em casa, conectado via internet, o melhor que Ms. Moore tem a fazer é partir pra outra.

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