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'Culpa depressiva', conceito criado pela psicanalista austríaca Melanie Klein, pode levar pessoas a mudar hábitos para impedir danos ao ambiente; mas é preciso parar de vez de agredir o planeta

Karina Ninni, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2010 | 00h00

Não é uma sensação tão desconhecida. Um dia você desliga o chuveiro depois de apenas cinco minutos de banho. No outro, está separando cada categoria de lixo e deixa de ir ao trabalho de carro para pegar um ônibus e um metrô. Ao procurar com calma as origens de tal mudança de atitude, é provável que encontre pelo caminho um sentimento que, à primeira vista, pode parecer embaraçoso: a boa e velha culpa.

"Considero a culpa uma condição fundamental para a evolução do ser humano, no sentido de alcançar uma ética humanista universal, baseada na não agressão e na não destruição nem do outro nem do planeta. Mas é preciso que a pessoa tenha alcançado um tipo de culpa que é chamada de "culpa depressiva"", esclarece Sueli Damergian, professora do Instituto de Psicologia da USP e autora do livro Para Além da Barbárie Civilizatória: o Amor e a Ética Humanista.

O conceito, segundo Sueli, foi cunhado pela psicanalista austríaca Melanie Klein. "A pessoa sente culpa cada vez que ataca um objeto de amor necessário para sua sobrevivência."

A psicóloga afirma que a culpa depressiva não é ruim - é uma evolução do ser humano. O sentimento está ligado à capacidade de reparação do mal. "A culpa depressiva faz a pessoa reconhecer o mal que pode ter causado e procurar de todas as formas reparar, reconstruir, refazer", diz.

Comprar créditos de carbono ou plantar árvores para neutralizar as emissões podem ser manifestações da culpa depressiva, porque visam consertar um mal causado ao planeta. "O desejo de reparar é legítimo e louvável."

O oposto dessa culpa depressiva é a culpa persecutória. "A pessoa movida por ela só não age mal por medo de ser punida", resume Sueli. É o caso de quem não joga lixo pela janela por não querer receber uma multa, digamos. Ao contrário desses, os que "alcançaram a culpa depressiva têm uma censura interna", afirma Sueli.

Culpa a mais. Para alguns, um pouco mais dessa tal culpa depressiva - ou senso de responsabilidade - não faria mal ao planeta. "Falta culpa às pessoas. Elas têm preguiça e acham que suas ações estão protegidas pelo anonimato", diz o cantor Carlos Navas. Tachado de chato por seus vizinhos, Navas lembra a todos de fazer a sua parte no planeta.

"Certa vez, no Parque da Água Branca, vi um casal jogando na rua todo o lixo que restou dos lanches que comiam: embalagens de papel, copos de refrigerante, canudos, sacolas... Bati no vidro do carro e perguntei: "Vocês precisam jogar isso no chão?". Eles disseram que a rua era pública e perguntaram o que eu tinha a ver com isso. Eu respondi: "Tudo. Se a rua é pública, é de todos, inclusive minha.""

Se por um lado alguns não são mobilizados por sentimentos de culpa depressiva, outros com hábitos ambientalmente corretos consolidados são exigentes a ponto de sentir que poderiam fazer melhor e mais.

"Por ser vegano, eu até podia me orgulhar dos meus hábitos, especialmente da redução do consumo de água, de emissão de poluentes e de produção de lixo", afirma o técnico de documentação da Cinemateca Brasileira Sérgio Silva. "Mas ainda gostaria de comprar menos e consumir menos produtos industrializados", prossegue, revelando sentimento de culpa.

Embora as condutas individuais de tentar ser mais sustentável sejam elogiáveis, Sueli alerta que a destruição que o homem causa "vai mais além e está em um nível muito avançado". "Ter apenas atitudes reparatórias ou pseudo-reparatórias não é mais suficiente. É preciso parar de agredir", diz, citando o caso dos EUA, que até hoje não ratificaram o Protocolo de Kyoto.

"Não adianta reparar e voltar a fazer. Isso vira um mecanismo de defesa folgada. O ideal é antecipar-se ao dano e não cometê-lo", afirma a psicóloga.

Para Eda Tassara, professora do Laboratório de Psicologia Ambiental da USP, a culpa depressiva pode ser excepcionalmente produtiva, mas seus portadores não estão livres da influência do discurso da propaganda ambiental.

"A propaganda tem o objetivo de fazer com que a pessoa aja de determinada forma. No caso de um produto fica fácil: a meta é fazer o sujeito comprar o produto. Já a propaganda ideológica atua através de motivações: medo, culpa..."

Eda afirma que uma tendência da propaganda ambiental é o uso de um discurso pesado, que joga sobre as pessoas toda a responsabilidade diante de possíveis catástrofes ambientais. "Culpa não define, mas pode ser o motor motivacional que dispara várias formas de ação", conclui. / COLABOROU GUSTAVO BONFIGLIOLI, ESPECIAL PARA O ESTADO

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