Denis Ferreira Netto/AE
Denis Ferreira Netto/AE

Cultivo de medicinais requer especialistas

É preciso plantar a espécie correta e saber o ponto de colheita e de secagem, para preservar o princípio ativo

Fernanda Yoneya, Leandro Costa, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2010 | 01h23

Dono de 10 hectares em Taubaté (SP), no Vale do Paraíba, onde produz legumes e verduras orgânicas, Claudio Locateli experimenta, agora, em mil metros quadrados, o cultivo de plantas medicinais - alecrim, hortelã e capim-cidreira. O mesmo está fazendo Leandro de Macedo, que produz hortaliças orgânicas em São Bento do Sapucaí, também no Vale do Paraíba.

Ambos veem no novo cultivo a chance de diversificar a propriedade, com a venda de óleo essencial para o mercado de cosméticos e das plantas secas para a fitoterapia. "É um mercado em ascensão", diz Macedo, que destinou 500 metros quadrados para as medicinais. O incentivo veio da empresa de cosméticos Surya Brasil, por meio de um convênio com a Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta).

CADEIA PRODUTIVA

O objetivo, diz o agrônomo da empresa, Felipe Caranassios, é desenvolver a cadeia produtiva na região para que todo o fornecimento de óleo essencial venha da comunidade.

O programa envolve 12 produtores do Vale do Paraíba. "Com a ajuda da Apta, que dá suporte técnico aos produtores, estamos incentivando o plantio de alecrim, capim-cidreira, hortelã-pimenta e alfazema", diz a agrônoma da Surya, Amira Rachid. A expectativa é que os 10 mil metros de área plantada rendam 90 litros de óleo essencial, suficientes para um ano de demanda.

O mercado de medicinais é promissor, diz a pesquisadora Sandra Pereira da Silva, da Apta. "O segmento de fitoterápicos cresce 20%." Segundo a Associação Brasileira das Empresas do Setor Fitoterápico (Abifisa), 95% da matéria-prima para a produção de medicamentos naturais vem de fora. "Espécies como calêndula e camomila, que temos potencial de produzir, são importadas", diz o vice-presidente da Abifisa, Manoel Ferreira.

O cultivo de medicinais, aromáticas e condimentares concentra-se no Paraná, com 90% da área plantada do País (3.300 hectares) e 15 mil toneladas/ano, diz o agrônomo Cirino Corrêa Júnior, da Emater-PR. Segundo ele, o Estado tem condições de clima e solo favoráveis ao cultivo de mais de cem espécies de plantas, entre nativas e exóticas. Segundo Corrêa Jr., o mercado mundial envolveu, em 2008, mais de 400 mil toneladas de plantas, de 3 mil espécies, sendo 900 cultivadas.

EXTRATIVISMO

"O desafio é estimular o cultivo e reduzir o extrativismo." Calcula-se que o País tenha pelo menos 55 mil plantas que se enquadrem como medicinais/aromáticas/condimentares, mas só 3 mil estão identificadas. Para o professor Lindolpho Capellari Júnior, do Departamento de Ciências Biológicas da Esalq/USP, com a intenção do governo de incluir o uso de medicinais no Sistema Público de Saúde (SUS), o Brasil deve aumentar a produção. "A Anvisa aprovou uma lista de 72 plantas com ações terapêuticas comprovadas."

QUALIFICAÇÃO

O agrônomo da Emater diz que o segmento é rentável, mas "a mão de obra tem de ser qualificada: é preciso colher e secar no momento certo e da maneira correta. Sem isso, pode-se perder o princípio ativo." Além disso, deve-se ter uma unidade de beneficiamento, com secadores, é indispensável, pois 99% do mercado compra as plantas secas.

Disposto a levar o cultivo de medicinais e aromáticas para Nhandeara (SP), o produtor Waldir Oliveira Jordão aguarda os resultados do investimento, iniciado há dois anos. Ele plantou 25 hectares de melaleuca, erva-baleeira, carqueja e patchuli e montou uma unidade de beneficiamento de 200 metros quadrados. "Fiz uma boa adubação orgânica, não usei agrotóxicos e em junho devo ter a primeira colheita", diz. Sem familiaridade com agricultura, Jordão contratou a consultoria do Centro de Pesquisa Mokiti Okada, especializado em agricultura natural. Jordão está montando uma destilaria, para extrair óleo de patchuli. "Fiz um contrato com uma empresa para entregar o óleo produzido em 10 hectares."

 

MARACUJÁ - Produtor há 20 anos, Estefano Dranka investiu em toda a cadeia produtiva, da produção de mudas à instalação de uma agroindústria

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.