Cunegunda, a santa padroeira do sal

Os católicos da Polônia e Lituânia celebram amanhã, dia 24 de julho, a festa anual de Santa Cunegunda, também conhecida por Kinga (1224–1292), padroeira dos dois países. (Atenção: eles não acham esses nomes engraçados…). A comemoração será dupla. Em 2009, completam-se dez anos da canonização de Santa Cunegunda. Apesar da fama de milagrosa, inclusive em vida, ela demorou sete séculos para ascender à plenitude dos altares. O processo de canonização estava contaminado por imprecisões biográficas e lendas medievais. Ao finalizá-lo em 1999, o papa João Paulo II admitiu o problema. Mas enfatizou que a bem-aventurança da padroeira de sua pátria é inquestionável. Santa Cunegunda casou-se com Boleslau V, o Casto, rei da Polônia, e não teve filhos. Segundo a Vida dos Santos de Butler (Editora Vozes, Petrópolis, 1989, volume 7), desde a noite de núpcias obrigou o marido a observar "a continência em relação a ela, já que se consagrara a Deus". Forçou Boleslau V a também fazer o voto de castidade. Ele morreu em 1279. A viúva se recusou a substituí-lo no governo. Preferiu ingressar na vida religiosa, tornar-se freira e, depois, abadessa. Veja também: Receita de peixe ao sal Uma das histórias lendárias a respeito de Santa Cunegunda é a maneira como teria respondido aos detratores: desfez seus mexericos atravessando com os pés descalços uma camada de brasas, sem queimá-los. Com isso, reiterou a pureza e comunhão com Deus. Outro episódio fantástico a envolve com o fogo. Uma noite adormeceu durante a leitura que certa dama da corte fazia ao pé da cama. A acompanhante também pegou no sono e deixou cair nos lençóis o castiçal que empunhava. As duas acordaram com todo o quarto em chamas. Santa Cunegunda fez o sinal da cruz e apagou o fogo milagrosamente. Ela e a dama da corte saíram ilesas. Uma terceira história espetacular atribui à intercessão da padroeira da Polônia e da Lituânia a descoberta da gigantesca mina de sal de Wieliczka, perto da cidade polonesa de Cracóvia. Às vésperas de casar, o pai teria oferecido a ela uma arca contendo ouro e pedras preciosas. Santa Cunegunda rejeitou o dote, "por haver custado sacrifício e sangue do povo". Em troca, pediu uma arca com sal, "esse, sim, um bem essencial". Generosamente, o pai doou à filha uma mina do produto, localizada na Transilvânia, região histórica hoje centro-ocidental da Romênia. Quando foi conhecê-la, ela jogou ali seu anel mais precioso, agradecendo a Deus o presente. Tempos depois, a caminho de Cracóvia, parou para descansar em Wieliczka e, sensibilizada com a pobreza do lugar, mandou a população cavar um buraco no solo. Logo apareceu sal em abundância e, no meio, o anel que a virtuosa senhora deixara na Transilvânia. Com isso, Santa Cunegunda passou a ter nova responsabilidade. Virou protetora dos exploradores de sal. A mina de Wieliczka, em atividade desde o século 13, é profunda e extensa. Possui 300 quilômetros de galerias, recebe anualmente mais de 1 milhão de visitantes e, em 1978, foi considerada pela Unesco patrimônio da humanidade. Desde a Idade Média, especula-se sobre a identificação de Santa Cunegunda com o sal. Para muitos, simbolizaria seu voto de castidade. Estudos modernos, porém, interpretam-no como esterilidade. Naquela época, uma mulher cujo casamento não resultasse em filhos, era julgada castigada por Deus. Criar um pretexto religioso afastava a imputação. O sal sempre recebeu interpretações ambivalentes. Muitas culturas o consideram substância negativa. No Antigo Testamento, os conquistadores o espalhavam sobre as ruínas da cidade que destruíam. "Terra salgada" era o nome dado à zona mais árida do deserto. Após enforcarem Tiradentes, seus executores mandaram salgar os bens do mártir da Independência do Brasil. No afresco Última Ceia, em Milão, na Itália, Leonardo da Vinci colocou um saleiro entornado diante do cotovelo de Judas. O traidor de Cristo se mataria depois. Deixar cair sal no chão "atrai azar". Em compensação, Jesus o invocou positivamente. Chamou os apóstolos incumbidos de espalhar sua palavra de "sal da terra". Em várias culturas é substância que estabelece vínculos de fidelidade e reforça laços de convivência. Nos tempos bíblicos, selava amizade. Certas populações ainda oferecem sal ao hóspede bem-vindo. Os ingleses qualificam o gesto de "to eat somebody’s salt". Até hoje os franceses aconselham comer "un miud de sel" com o futuro amigo. Em uma das histórias das Mil e Uma Noites, primoroso elenco de contos da tradição muçulmana, um homem é levado pela pobreza a acompanhar um grupo de ladrões no roubo do tesouro do rei. Durante a ação criminosa, enxerga alguma coisa branca na escuridão. Acreditando ser uma joia, toca-a com a língua e imediatamente muda de lado. Considera-se hóspede do soberano, ligado a ele pelo laço da hospitalidade estabelecida pelo sal. Enfrenta os ladrões e os obriga a interromper o assalto. Mais tarde, confessa a história ao rei, sendo por este nomeado tesoureiro. Santa Cunegunda nada tem a ver com a história. Católica piedosa, a padroeira dos exploradores de sal jamais se envolveria com "infiéis" muçulmanos. jadiaslopes@terra.com.br

Dias Lopes,

23 Julho 2009 | 10h48

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