Curitibano vira michê na Itália para sustentar família

Brasileiro diz chorar todos os dias e esconder da família verdadeira fonte de renda

BBC,

25 de março de 2008 | 08h20

Antes de chegar a Roma, Cássio*, de 32 anos, já sabia da existência de um grande número de travestis brasileiros no mercado do sexo na Itália. Não imaginava, no entanto, que ele também entraria no mundo da prostituição masculina. "Não sou gay. Faço isso apenas por dinheiro", disse à BBC Brasil. "Entrei nesse mundo por desespero. Estava sem emprego, sem nenhum centavo no bolso e precisava enviar alguma coisa para a minha família." Ele se prostitui há pouco mais de dois anos, mas - até hoje - não teve coragem de contar o que faz à família nem pensa em fazer isso. "Morro de vergonha. Não conto o que faço ao meu melhor amigo nem a ninguém. É uma grande humilhação", disse, com lágrimas nos olhos. "Também me cuido muito. Não tenho nenhuma relação sem camisinha." Segundo o curitibano, há outros brasileiros na mesma situação, que se definem heterossexuais, mas são levados pelas dificuldades da vida no exterior a fazer programas com outros homens. "É o desespero que nos leva a isso", garantiu. "Me arrependo todos os dias de ter entrado nesse mundo e choro todas as noites por isso. Mas ainda preciso juntar mais dinheiro e comprar uma casa para a minha família." Desemprego Ainda no Brasil, Cássio pensava que poderia conseguir trabalho facilmente em restaurantes ou hotéis e mandar dinheiro para sustentar a mulher e os dois filhos que ficaram em Curitiba, no Paraná. Mas, nos primeiros três meses na capital italiana, conseguiu apenas distribuir panfletos por alguns dias, ganhando 18 centavos de euros (equivalente a quase R$ 0,50) por cada um. No mês seguinte, outro emprego temporário, como atendente em uma pizzaria três vezes por semana. O que ganhava mal dava para pagar pelo transporte, alimentação e o aluguel do quarto - 250 euros mensais (cerca de R$ 682)- que dividia com um amigo na casa de uma família italiana. Nos quatro primeiros meses na Itália, não conseguiu enviar nada para a família no Brasil. "Saía todos os dias para procurar um emprego de verdade. Mas não aparecia nada", lembra. "Um dia, resolvi botar anúncio em um jornal e fiquei muito surpreso com o que aconteceu: tinha apenas anunciado que era um brasileiro recém-chegado na Itália, buscando emprego como enfermeiro, garçom, ou acompanhante de idosos. No entanto, vários homens me ligaram achando que eu estava me oferecendo para fazer programas". Cássio dizia que não estava interessado e que queria apenas um trabalho. Mas os homens eram insistentes e não paravam de ligar. Pensou durante dois dias até que cedeu. Depois do primeiro encontro, surgiu o segundo, o terceiro e ele não parou mais. "Vim para a Itália com o compromisso de trabalhar, economizar e comprar uma casa para minha família no Brasil. Mas a situação foi ficando cada vez mais difícil. Não tinha documentos e o dinheiro estava acabando", afirmou. "Não poderia ficar aqui sem ganhar nada. Nem emprego temporário estava aparecendo." Caminho fácil Ex-gerente de uma loja de roupas masculinas no Brasil, Cássio diz que, apesar de humilhante, fazer programas é um caminho rápido e fácil para ganhar dinheiro. O paranaense se define como de classe média na Itália. Está morando sozinho em um apartamento em uma cidade vizinha a Roma e comprou um carro para fazer os programas em domicílio com mais tranqüilidade. "Não marco nenhum encontro na minha casa para evitar confusões", disse. "Meus clientes nunca ficam sabendo onde moro e só faço contatos através da Internet e pelo celular." Em comparação com a situação de muitos travestis brasileiros que se prostituem nas ruas de Roma, Cássio tem uma vida tranqüila. Chegou à Itália com o dinheiro da indenização do último emprego no Brasil e não contraiu dívidas. Dívidas Muitos transexuais brasileiros, no entanto, chegam no país devendo até 10 mil euros (cerca de R$ 27 mil) para agenciadores que arrumam passagens aéreas, passaportes, dinheiro para o ingresso na Itália e hospedagem. A situação dos homens é mais complicada do que a das mulheres. Geralmente, a dívida delas fica em torno dos três mil euros (cerca de R$ 8 mil), facilmente paga em um mês com uma média de três a cinco programas por noite. Os travestis levam muito mais tempo. Mas eles são tão requisitados quanto elas. Em uma das avenidas conhecidas de prostituição masculina, a Campi Sportivi, em Roma, homens em carros elegantes chegam a fazer filas em busca de um programa. Muitos transexuais são vítimas da exploração de quadrilhas que se dedicam ao recrutamento no Brasil. Esses grupos são responsáveis por colocá-los na rua, obrigando-os a pagar parte do que recebem diariamente para saldar o débito que contraíram para chegar no país, as despesas com moradia e o pedaço de calçada em que trabalham. "É difícil saber o número total de transexuais do Brasil que se prostituem nas ruas da capital italiana, mas, certamente, são muitos", disse o major Lorenzo Sabatino, comandante do Núcleo dos Carabinieri de Roma. Na avaliação de Sabatino, existem inúmeros grupos que se aproveitam da situação de ilegalidade dos brasileiros para explorá-los e ganhar dinheiro. *Nome fictício BBC Brasil

Tudo o que sabemos sobre:
Imigração

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.