Currículo multidisciplinar ainda enfrenta resistência

Estudo mostra que modelo inovador, com 14 formações específicas, não foi assimilado por alunos e professores

Paulo Saldaña, de O Estado de S. Paulo,

29 de janeiro de 2012 | 03h05

Na hora de escolher a carreira para qual concorreria no Sistema de Seleção Unificada (Sisu), o estudante Victor Rueda, de 17 anos, tinha mais dúvidas que certezas. Sempre gostou das disciplinas de humanas, mas um curso totalmente voltado a apenas uma área o assustava. "Achei que um ciclo mais genérico poderia me orientar, por isso achei que o bacharelado interdisciplinar tinha tudo a ver comigo", disse. "O fato de ser genérico é o que vai ser bom para mim."

 

Rueda foi aprovado em Ciências e Humanidades e está empolgado para o início das aulas. Deve encontrar, entretanto, colegas menos conscientes que ele, uma vez que a proposta dos cursos interdisciplinares ainda é mal compreendida.

 

Essa foi a conclusão da pesquisadora Tatiana Carvalho em sua tese de mestrado na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Tatiana se debruçou sobre o projeto da UFABC e passou mais de dois anos, entre 2009 e 2011, conversando com professores e alunos.

 

"Existe uma dificuldade, um descompasso, até entre os professores. Em geral, são doutores com carreiras brilhantes, muitos deles jovens pesquisadores, mas que chegam à UFABC com a cabeça das grandes instituições que estudaram", diz ela. "Eles têm um modelo na cabeça e encontrei muito a reprodução desses modelos que não combinam com a proposta."

 

Novo modelo. Os alunos ingressam em um dos dois bacharelados, com currículo de três anos. As aulas são quadrimestrais e, a partir do segundo quadrimestre do curso, o aluno pode escolher disciplinas além da grade obrigatória. Após o primeiro período, é possível pegar o diploma de bacharel e ingressar no mestrado.

 

Quem quiser pode seguir na instituição para uma das 14 formações específicas - 8 são na área de engenharia. Neste ano, a instituição criou uma nova habilitação específica, a de Relações Internacionais.

 

A direção da universidade tem se esforçado para explicar aos futuros alunos os detalhes da proposta. Convoca os próprios veteranos a participar das apresentações a calouros e também promove visitas a escolas públicas da região - metade das vagas da instituição é destinada a alunos dessa origem. Até o ano passado, 37% dos estudantes eram do ABCD e o restante, de fora.

 

A pesquisador Tatiana Carvalho afirma que os esforços têm surtido efeito, mas o desafio de o projeto se consolidar ainda parece distante de ser vencido. "A proposta dos bacharelados interdisciplinares tem também como objetivo fomentar a pesquisa, mas os estudantes querem se formar nas áreas mais tradicionais, como engenharia e economia."

 

A preocupação dos alunos tem uma motivação. O mercado de trabalho ainda não reconhece muito bem os cursos interdisciplinares na hora de contratar, por exemplo, um estagiário. "Encontrei alunos que queriam Economia, mas não conseguiam estágio como alunos de Economia - apesar de montar a grade para isso. Por isso, muita gente desiste do curso." Mas Tatiana ressalta a preocupação da instituição de oferecer à sociedade, por exemplo, um engenheiro com uma formação mais ampla.

 

PARA LEMBRAR

 

No País, só 46% das obras estão prontas

 

Em 2007, o governo federal criou o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). Foram criadas 14 novas instituições e 100 câmpus – e o número de vagas praticamente dobrou, chegando a 234 mil. A infraestrutura, entretanto, não acompanhou o ritmo: dos 3,5 milhões de metros quadrados de obras previstas, nem metade (46%) foi concluída. Até o processo seletivo de 2013 haverá 4 novas universidades e outros 47 câmpus.

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