D. João colocou Cúria no 'banco dos réus' e foi ovacionado

Cenário: Jamil Chade

É JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2013 | 02h05

O cardeal brasileiro d. João Aviz cobra uma reforma da administração da Cúria, liderando um ataque frontal ao secretário de Estado do Vaticano, Tarcisio Bertone, e à máquina de Estado da Santa Sé. Em sua edição dominical, o jornal La Repubblica revelou parte das intervenções do brasileiro nas congregações-gerais, chegando a apontar que ele teria colocado a Cúria no "banco dos réus" e que foi "ovacionado" pelos demais príncipes do Vaticano ao final de seu discurso.

Os comentários foram elogiados pelo jornal como vindos de alguém que poderia dar "novo ar" ao Vaticano. Fontes confirmaram que d. João liderou os apelos por mudanças na estrutura da Cúria e causou "excelente impressão" nos demais cardeais fora do grupo de Bertone por ter colocado de forma clara as dificuldades do clero diante do poder estabelecido.

Ao terminar o discurso, Aviz foi cumprimentado por vários colegas cardeais e, desde então, seu nome voltou a ser mencionado como eventual candidato por parte de vaticanistas. Com 64 anos de idade, d. João optou por não falar à imprensa nos últimos dias. Ao Estado, declarou há duas semanas que a base da Igreja havia migrado da Europa para outras regiões do mundo. Um dos obstáculos é o fato de ter se tornado cardeal há apenas um ano.

O brasileiro tocou em dois pontos críticos em sua intervenção. O primeiro foi a necessidade de criar mecanismos para facilitar a administração do Vaticano, evitando um isolamento do papa e ajudando-o a governar. Uma das queixas dos cardeais é de que muitos deles não sabem exatamente o que o pontífice desejava, já que sua mensagem vinha sendo "filtrada" por seu secretário de Estado. Outro ponto destacado seria a falta de transparência no Banco do Vaticano, outro duro recado ao grupo no poder.

O brasileiro não foi o único a fazer cobranças. Segundo assessores de cardeais, a semana foi marcada pelo apelo de diversos religiosos por mudanças profundas na administração da Igreja, inclusive com propostas para criar uma espécie de gabinete que ajude a gerenciar a Santa Sé. Entre os diversos cardeais que pediram mudanças estão os influentes Christoph Schonborn, de Viena, e o alemão Walter Kasper, que há anos vem indicando que a gestão da Igreja precisa se modernizar. "No fundo, trata-se de um ataque a Bertone", confessou o assessor de um cardeal. "Os escândalos mostraram que a máquina fracassou e precisa mudar."

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