D. Odilo diz que foi surpreendido pela renúncia de Bento XVI

O cardeal-arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer, estava desfazendo as malas, ao chegar a Roma na manhã de segunda-feira, quando ouviu pelo rádio a notícia da renúncia de Bento XVI. Rodou então o dial para confirmar em outras emissoras se era mesmo verdade o que acabava de escutar.

JOSÉ MARIA MAYRINK, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2013 | 02h01

"Mal podia acreditar e fiquei muito surpreso, como todo mundo, mas compreendi o gesto do papa", disse o cardeal, ontem à tarde, em entrevista coletiva convocada para divulgar a Campanha da Fraternidade (CF), que se inicia na Quarta-Feira de Cinzas.

O tema seria a CF, dedicada este ano à juventude, mas os jornalistas só queriam saber de Bento XVI. O arcebispo de São Paulo, um dos cinco cardeais brasileiros que vão participar do próximo conclave, rechaçou de saída qualquer especulação em torno de uma provável chance sua de ser eleito papa.

"Se estou preparado? Seria presunção de qualquer cardeal dizer que está preparado para ser papa, pois a avaliação depende dos outros cardeais", afirmou d. Odilo. Em sua opinião, idade e país de origem podem ser levados em consideração, mas não são condições essenciais para se traçar o perfil ideal de quem vai governar a Igreja.

A saúde, sim, é um fator importante, "porque não se vai eleger um cardeal com problemas de saúde". D. Odilo revelou que nos últimos anos vinha observando que Bento XVI parecia mais debilitado, o que, o próprio papa admitiu, ao anunciar a renúncia.

Quanto à expectativa daqueles que gostariam de ter um candidato mais conservador ou um mais liberal para chefiar a Igreja, d. Odilo advertiu que não se deve esperar um papa que não seja ortodoxo, que não seja fiel a Jesus Cristo. "O papa não pode considerar boa uma coisa que se oponha aos Dez Mandamentos", afirmou.

Seja quem for o sucessor de Bento XVI, acrescentou o cardeal, terá de enfrentar os desafios da pós-modernidade, entre eles a nova cultura do subjetivismo total e do relativismo total, com a negação de valores religiosos, éticos e antropológicos.

"O que está mais em crise atualmente é a razão humana, quando se considera que ela pode definir o que é bom e o que é mau", disse o arcebispo. Esses problemas afligem o papa, mas é preciso pensar, lembrou d. Odilo, afirmando que o papa não faz as coisas sozinho.

Sobre a hipótese de que Bento XVI renunciou em virtude também de disputas internas na Cúria Romana, o arcebispo garantiu que vê disputa de poder entre os cardeais, pois o que existe é serviço à Igreja.

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