Da garagem para o Vale do Silício: a história da Cyclades

Dois brasileiros, John Lima e Daniel Dalarossa, construíram uma empresa de sucesso no Vale do Silício, coração americano do mercado de tecnologia. A Cyclades, criada por eles, foi vendida para a americana Avocent em março, por US$ 90 milhões. Surgida numa garagem do bairro de Vila Olímpia, em São Paulo, em 1988, a Cyclades se tornou, em 18 anos, uma empresa com faturamento de US$ 60,9 milhões, 350 funcionários e presença em 16 países."Foi essencial a decisão de vir para os Estados Unidos e atuar no mercado local", afirmou por e-mail John Lima, de 50 anos, que mora hoje em Danville, cidade próxima de São Francisco, nos EUA. "Não viemos para desenvolver tecnologia e enviar para o Brasil, viemos para cá para participar do mercado americano." Pelo contrário, a Cyclades tinha equipe de pesquisa e desenvolvimento no Brasil que criava produtos para o mercado mundial.Uma das mudanças feitas para se adaptar ao mercado americano foi no nome de um dos fundadores. João Lima se tornou John para facilitar a pronúncia do nome de batismo fora do Brasil: "Sou João no Brasil e John aqui nos EUA e na Europa".A Cyclades fabricava equipamentos e software para redes de comunicação. "Um fator importante para o nosso sucesso foi saber aproveitar, em 1993, a oportunidade que apareceu com o Linux e o software de código aberto, o que permitiu nos posicionar como empresa global", apontou Lima. A empresa foi pioneira como fabricante de hardware a dar suporte comercial a produtos com Linux, sistema operacional surgido em 1991.Início tortuosoO primeiro produto da empresa, ainda no Brasil, foi uma placa de comunicação chamada Cyclom-8. "Para mim, o momento mais difícil foi logo no início", afirmou Daniel Dalarossa, de 45 anos, que vive em Fremont, Califórnia. "O único produto que tínhamos começou a apresentar problemas. Os terminais dos clientes ligados à placa travavam aleatoriamente. Tínhamos clientes revoltados com a situação. Um deles foi o Banco Nacional, do Rio de Janeiro."Segundo Dalarossa, o problema era de hardware, resolvido por Lima. "Quando tudo foi resolvido, eu disse ao John: ´se resolvemos essa, conseguimos resolver qualquer coisa...´" Para Lima, no entanto, o maior desafio foram os primeiros anos nos EUA: "De 1991 a 1993 foi dificílimo, porque o mercado estava saturado para o produto que tínhamos na época. Foi aí que surgiu o Linux , como a luz no fim do túnel, e tudo deu certo. Esta fase foi marcante e muito dura".Quando decidiram ir para os Estados Unidos, a empresa era pequena até mesmo para os padrões brasileiros. Eles haviam fechado 1990 com US$ 150 mil de faturamento e seis funcionários. A idéia de virar multinacional veio de um amigo, Robert Chen. "Ele nos convenceu de que tínhamos condição de vencer nos EUA, assim como ele, nascido em Taiwan, havia vencido", disse Dalarossa.DiferencialEm 18 anos de existência, a empresa atendeu a 8 mil clientes, incluindo 85 das 100 maiores empresas da lista da revista Fortune. O Linux foi essencial para se diferenciar lá fora. Para a venda, pesou uma nova especialidade, que eram servidores de acesso a console. Os sistemas da Cyclades permitiam acessar remotamente os componentes de uma rede de comunicação quando a rede caía, para que a conexão fosse restabelecida."A história da Cyclades é de muito sucesso", disse Paulo Hummel, vice-presidente da Avocent, empresa que comprou a Cyclades. "Dois brasileiros foram para os Estados Unidos, sem capital e sem conhecer a legislação, e conseguiram vender a empresa por US$ 90 milhões." A Avocent decidiu manter uma equipe de desenvolvimento de software no Brasil, com 30 pessoas. "Nosso objetivo é crescer na América Latina."A Avocent viu na linha de produtos da Cyclades um complemento à sua. "A Cyclades conquistou uma participação importante no mercado Linux e de gerenciamento de infra-estrutura de rede", apontou Hummel. "Com a entrada da Avocent, podemos oferecer uma solução completa para os ambientes Windows, Linux e de rede."Os fundadores da Cyclades buscavam, no ano passado, investidores para financiar a expansão internacional da empresa. Decidiram aceitar a oferta de venda integral para a Avocent. "Três empresas se apresentaram e fizeram propostas de compra total", explicou Dalarossa. "Resolvemos aceitar porque as ofertas eram boas e o momento também." Eles mandaram fazer troféus para comemorar o momento.Após a venda da Cyclades, John Lima toca dois projetos. No Vale do Silício, criou a empresa de software Coffee Bean Technology, para oferecer sistemas de Business Intelligence, que permite aos administradores terem acesso, em tempo real, às informações da empresa. Outro projeto é uma fundação, que planeja criar no Nordeste do Brasil, chamada Jovem Integridade. "Acredito que um dos problemas do Brasil é a falta de integridade em todos os níveis sociais, e uma forma de resolver este problema é começar com os jovens."Daniel Dalarossa também abriu uma fundação, chamada Cuore, para ajudar crianças carentes no Brasil, e uma empresa de construção civil chamada Effyis Homes, para atuar nos EUA. Flautista, Dalarossa também resolveu produzir discos de choro: "Vou colocar todos os recursos possíveis para promover essa coleção de CDs no Brasil, EUA e Japão".

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