Dá para prevenir um blecaute digital?

Uma bizarra série de três acidentes deixou um naco do Oriente Médio que se estende em direção à Índia e ao norte da África fora do ar, incapaz de se comunicar via internet. No Egito, 70% da rede foi afetada – e tudo anda muito lento. Na Arábia Saudita não há relatório oficial, mas estima-se que a situação é ainda pior. Dubai, centro regional do mercado financeiro, está às escuras. A Índia, melhor aparelhada para contratempos do tipo, tem a rede funcionando razoavelmente.O primeiro incidente ocorreu na quarta-feira passada quando o Flag, um extenso cabo submarino de fibra ótica, foi cortado no Mar Mediterrâneo próximo à cidade de Alexandria, no Egito.O Flag – ou Fiber-Optic Link Around the Globe – cruza meio mundo. Parte do Reino Unido em direção ao Continente Europeu, atravessa o mar até a África, toma rumo leste por terra e atravessa o Oriente Médio, a Ásia Central e o Pacífico até chegar, enfim, ao Japão. É uma viagem que no total exige quase 30 mil quilômetros em cabos.Na mesma quarta-feira outro cabo de fibra ótica se rompeu, dessa vez próximo a Marselha, na França, no mesmo Mediterrâneo. É um cabo maior, o Sea-Me-We 4, ou South East Asia-Middle East-West Europe 4. Ele se estende por 40 mil quilômetros da França ao Marrocos e depois, por terra, até o Golfo Pérsico. Via Oceano Índico, atinge a Índia e a costa asiática, até Cingapura.O terceiro acidente aconteceu na sexta-feira quando o Falcon, que liga todos os países do Golfo Pérsico entre si, foi rasgado. Para Dubai, foi o tiro de misericórdia. Até tudo ser reparado levará de duas a três semanas. Na Arábia Saudita, a internet está lenta e é preciso insistir muito para completar chamadas telefônicas para a Europa. Por enquanto a situação está afetando principalmente o mercado financeiro local.Cabos de fibra ótica se rompem – é do jogo. Isso acontece por causa de terremotos submarinos ou, mais provável, quando são fisgados por âncoras de navios. Que três cabos se rompam quase simultaneamente, prejudicando a comunicação com a mesma região do mundo, é de uma improbabilidade atroz. Ninguém suspeita de terrorismo – é só azar, mesmo. Não há o que fazer.Mas algumas lições podem ser aprendidas. O Egito foi seriamente atingido, mas mantém-se ainda que trêmulo de pé. Vários dos países do Golfo Pérsico chegaram a ter blecautes. Na Índia, embora 60% das conexões ao país tenham sido interrompidas, apenas pequenos provedores de acesso ficaram fora do ar. Nas grandes empresas, não houve reclamações nem em relação à velocidade da conexão. Em Cingapura, a rede nem piscou.As imprensas especializadas britânica e norte-americana de presto trataram de informar aos leitores que nada do tipo ocorreria em seus respectivos países. Não seria um ou dois ou três cabos com problemas que fariam os usuários do Reino Unido e dos EUA repararem que havia algo de diferente.Há um motivo para a Índia e Cingapura estarem de pé, assim como para britânicos e americanos permanecerem tranqüilos. O número de links que parte da América do Norte rumo à costa pacífica da Ásia, de um lado, e para a Europa, do outro, é estupendo.Já para a América do Sul a conexão é quase tão limitada quanto o número de conexões entre Europa, África e Oriente Médio. Isso quer dizer que um acidente triplo do tipo deixaria o Brasil tão cambaleante quanto o Egito, e países como Argentina e Chile tão nocauteados quanto a Arábia Saudita.Essa fragilidade nos afeta diariamente sem que a maioria dos brasileiros a perceba. Nossa internet é mais lenta do que no Hemisfério Norte. O que nós chamamos de banda larga aqui é mais caro e pior do que o que eles têm por lá.Vez por outra sai um ranking que afirma que o brasileiro é quem, no mundo, passa mais tempo online. Uma meia dúzia de patriotas acha que isso indica como somos digitais. Que nada. É que tudo é mais lento para carregar.*pedro.doria@grupoestado.com.br

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.