Dá para salvar a democracia com um golpe de Estado?

É a interrogação que percorre a importante obra de Litewski

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

27 de novembro de 2009 | 00h00

A propósito de Cidadão Boilesen, o filme, a Imprensa Oficial editou uma revista especial, que foi distribuída ao público presente no debate de segunda-feira passada, na Reserva Cultural. Sob o título do filme e figura do biografado, o empresário Henning Boilesen, há uma interrogação - é possível salvar a democracia com um golpe de Estado? É a questão que percorre o contundente documentário de Chaim Litewski, que o diretor trata com certa leveza, persuadido de que só assim poderá estimular o espectador a refletir sobre o horror retratado.

É preciso colocar essa leveza entre aspas, porque Litewski sabe que fala de uma ditadura e não de uma "ditabranda", como justamente os simpatizantes - ou coniventes - de outrora tentam hoje reescrever a história, apostando numa falta de memória que fingem combater segundo seus interesses. O formato de Cidadão Boilesen é sua força, mas a questão que o filme propõe merece toda reflexão. Em nome do combate à anarquia que viam ameaçar a democracia brasileira por volta de 1960, grupos civis e militares não apenas pediram como apoiaram o golpe. O Ato Institucional, o golpe dentro do golpe, foi a prova definitiva de que a democracia não tem de ser "salva". Ela se faz por meio de seus instrumentos democráticos, não por meio de instrumentos repressivos como a Operação Bandeirantes.

Havia, no Brasil nos anos 1960 - e 70, uma polarização. Antigos repressores tentam legitimar sua conduta. Existem falas tão cínicas que você até se indaga como a memória pode ser tão curta e essas figuras puderam permanecer impunes. Cidadão Boilesen não prega o revanchismo, mas a análise do ex-presidente, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, é muito interessante. Henning Boilesen representava o mal, mas não era o único. Outros foram chamados, mas não corresponderam - nem contribuíram. Foram, são, os verdadeiros democratas.

Na revista da Imprensa Oficial, há uma frase do diretor Litewski. Pinçada, ela serve de título para um dos artigos - "História, para mim, é o que você lembra dela." Cidadão Boilesen não deixa de ser uma aula de história que ele nos dá. A menos chata, a mais criativa e reveladora das aulas. O filme põe o dedo numa ferida não cicatrizada. Como diz o diretor, "as empresas estão todas aí. O vínculo entre elas e o equipamento militar foi apenas varrido para baixo do tapete." É contra isso que Litewski (e Cidadão Boilesen) se insurgem. O filme é ousado, necessário e apaixonante. Impactante - será muito difícil, senão impossível, assisti-lo com indiferença.

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